O Brasil é um país plural no seu povo, nas condições geoclimáticas, na cultura. Não é diferente na pecuária, uma resultante heterogênea dessa diversidade, mas que pode ser resumida em dois grandes grupos. O primeiro, predominante, adota um modelo extensivo, baseado em pastagens e dependente de expansão de área para aumentar a produção. O segundo, embora numericamente menor, responde por expressiva parte da produção, caracterizando-se pela adoção de tecnologias, mas não necessariamente de práticas de sustentabilidade.
Observa-se que, paulatinamente, o modelo extrativista está migrando para outros em que o uso de tecnologias é maior, impulsionado pela competição pelo uso da terra com outras atividades, especialmente a produção de grãos e cana-de-açúcar. Nessa transição, a recuperação de pastagens, o aporte nutricional suplementar e o uso de genética superior assumem protagonismo. Mesmo assim, a pecuária nacional tem um espaço gigantesco a ser explorado.
O setor tem sido desafiado a rever seus sistemas de produção, pressionado, sobretudo, por questões ambientais. A pecuária é considerada um segmento conservador: seu reposicionamento é fundamental para afastá-la da percepção coletiva de que é uma atividade extrativista.
Ao longo dos últimos três séculos, e mais notadamente após a Revolução Verde da década de 1960, o uso da terra ocorreu de forma intensa e contínua, em muitos casos esgotando a capacidade produtiva. Persiste ainda a visão cartesiana que separa totalmente os humanos da natureza, de um lado os homens e seus sistemas de produção, de outro a natureza intocada. Hoje, a ciência nos mostra que a conexão entre humanos e natureza é, na verdade, contínua, mesmo nos espaços urbanos. É a chamada “teia da vida”, já manifestada em 1854 pelo Cacique Seattle, quando o governo dos Estados Unidos propôs comprar suas terras: “O que ocorrer com a terra recairá sobre os filhos da terra. Há uma ligação em tudo”.
Mas este artigo não pretende ser uma crítica sobre o que fizemos, pois foi exatamente por termos feito que hoje cada pessoa tem 25% mais alimentos do que na década de 1960. O ponto é como manter essa oferta de alimentos de forma sustentável. Felizmente, temos tecnologias para praticar uma pecuária regenerativa e lucrativa, preservando a terra e aumentando a produtividade. O discurso crítico e polarizado não contribui para atingir esse patamar; apenas afasta a possibilidade de construção de políticas públicas eficientes e estimula os produtores a assumir atitudes defensivas.
Como exemplo, um recorte da pecuária no Brasil, onde grande parte do aporte nutricional vem de pastagens, mostra que recuperar e implantar pastagens tem o potencial de elevar a carga animal de menos de um animal por hectare (média nacional) para até 3,6 por hectare. Isso, além de aumentar a produtividade sem expandir área, também sequestra carbono, condição típica das pastagens tropicais em crescimento. Considerando que mais de 60% dos 179 milhões de hectares de pastagens brasileiras estão em processo de degradação, fica evidente o potencial de melhorar a eficiência do sistema.
Luiz Josahkian é zootecnista, professor de melhoramento genético e superintendente técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural.