Corte inédito na produção de energia preocupa usinas de cogeração no país

Pela primeira vez, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou o chamado “curtailment” — corte na geração de energia — para usinas de cogeração a biomassa, incluindo aquelas que utilizam bagaço de cana-de-açúcar. A medida, aplicada em 7 de junho, gerou apreensão no setor sucroenergético, que teme impactos na moagem e na produção de açúcar e etanol.

No dia 6 de junho, um sábado, o ONS notificou 12 distribuidoras sobre a necessidade de reduzir a geração em 1 gigawatt (GW) no dia seguinte, das 10h às 14h. Cada distribuidora ficou responsável por alocar os cortes entre suas usinas associadas, com aviso prévio de 24 horas, conforme previsto no Plano Emergencial de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição.

Até então, apenas usinas eólicas e fotovoltaicas haviam sido submetidas a cortes. O curtailment tornou-se recorrente nos últimos dois anos para essas fontes, principalmente devido ao avanço da geração micro e minidistribuída (MMGD), que passa a atender a demanda durante o dia, quando o consumo é menor.

Para as térmicas a biomassa, porém, a situação é mais complexa. “Na hora que não tenho mais exportação, tenho que trabalhar o gerador em menor carga, mas ele ainda precisa funcionar porque preciso de energia elétrica no processo e de menos vapor para a turbina, que não está mais em sua potência nominal. Esse estágio não é estável”, explica Newton Duarte, presidente da Associação da Indústria de Cogeração de Energia (Cogen).

Fábio Venturelli, CEO da São Martinho, compara o impacto a dirigir um carro com tração nas quatro rodas e, de repente, ter que continuar com uma roda travada. “Isso pode levar a um acidente, a uma fatalidade”, alerta. Já Luiz Gustavo Junqueira, diretor comercial da Usina Alta Mogiana, afirma que “exigir que a usina pare por algumas horas é muito contraproducente. Os custos de produção do açúcar e do etanol vão para a estratosfera”.

Embora o impacto imediato tenha sido limitado — a maioria das usinas conseguiu adaptar seus processos sem grandes prejuízos —, o temor é de que novos episódios ocorram. Entre os riscos estão a perda de receita com a energia não injetada, o acúmulo de bagaço (que muitas usinas não têm como estocar) e até mesmo lucros cessantes por descumprimento de contratos de açúcar e etanol.

Usinas como a Tereos afirmaram que já possuem estratégias de flexibilidade operacional e que não houve “prejuízos relevantes” à produção. A CPFL Paulista, por exemplo, acionou 86 usinas para o plano de corte, sendo 55 delas a biomassa. A Cemig também acionou todas as usinas contratadas de forma isonômica.

O setor agora aguarda desdobramentos e cobra do ONS e da Aneel maior previsibilidade e planejamento para evitar que cortes como esse comprometam a safra e a segurança operacional das usinas.

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