Originário da Ásia, o gengibre é amplamente utilizado na gastronomia, indústria alimentícia e farmacêutica. Em Tapiraí (SP), município de pouco mais de 8 mil habitantes na região de Sorocaba, a cultura dessa raiz é uma tradição antiga, trazida por imigrantes japoneses no início do século XX. A cidade chegou a ser conhecida como “Capital do Gengibre”. No entanto, nas últimas décadas, a produção local vem caindo devido a doenças, problemas de manejo, êxodo rural e sucessão familiar.
Para reverter esse cenário e fortalecer a cultura, aumentar a produtividade e a qualidade e ganhar mercado, um grupo de agricultores formou uma associação, com apoio do Instituto Agronômico (IAC) e da prefeitura municipal.
Hélio Tiago de Oliveira, 38 anos, presidente da associação, começou a trabalhar com gengibre aos 13 anos como empregado de produtores japoneses. Após um período na capital, voltou para Tapiraí há dez anos e decidiu investir na cultura que já conhecia. Hoje cultiva 3,6 hectares arrendados e nos últimos três anos dobrou a produção. Neste ano, espera colher de 5 mil a 8 mil caixas de 14 quilos.
“A associação tem o apoio da pesquisa e capacitação do IAC. Precisamos melhorar o manejo, cuidar mais do solo, desenvolver variedades mais resistentes a doenças e aumentar a produtividade para tentar acessar também o mercado externo. Já estamos conversando com compradores de Israel e Argentina”, afirma Hélio.
Com incentivo do IAC, ele passou a fazer análise e correção de solo, adotar adubação recomendada e produtos biológicos. “Antes, eu só plantava e jogava o volume de adubo que achava necessário.”
Outro produtor que aposta na valorização da raiz é Joel Carvalho dos Santos Neto, 28 anos. Filho de pecuaristas, ele foi atraído pela rentabilidade e pelo histórico do gengibre em Tapiraí. Há quatro anos plantou uma primeira lavoura teste e hoje cultiva 12 hectares, com produção anual de cerca de 500 toneladas. “Dá para dobrar o investimento, fazendo o cultivo da maneira certa. O maior problema é a falta de mão de obra”, diz o produtor, que emprega oito pessoas e calcula lucratividade de R$ 300 mil a R$ 500 mil por alqueire.
Joel, que usa drones na pulverização, foi premiado na Feira Nacional do Gengibre (Fenagem) de Tapiraí nos últimos dois anos e iniciou exportações indiretas para Índia e Europa.
Nem todos, porém, têm o mesmo sucesso. Arnaldo Fernando Guerra, 61 anos, que planta gengibre há 12 anos em Tapiraí e Juquiá, estima perda de 5 mil caixas neste ano devido a doenças. No ano passado, colheu 12 mil caixas. “O custo de produção de um alqueire de gengibre é de cerca de R$ 150 mil. Em um ano bom, o alqueire rende umas 10 mil caixas, com receita de R$ 400 mil. Difícil ganhar isso com outro trabalho, mas tem que lidar com os problemas”, desabafa.
O Estado de São Paulo é o segundo maior produtor nacional de gengibre, atrás do Espírito Santo. Enquanto a produção capixaba alcança cerca de 60 mil toneladas anuais, os paulistas colhem apenas 5,5 mil toneladas. A produtividade em São Paulo fica em torno de 25 a 30 toneladas por hectare, contra 60 toneladas no Espírito Santo.
Segundo Eliane Gomes Fabri, pesquisadora do IAC, a produção paulista perdeu espaço para o gengibre capixaba no início dos anos 2000 devido à queda de produtividade. A prefeitura de Tapiraí solicitou auxílio do IAC em 2022, e o instituto passou a trabalhar em projeto de fortalecimento da cadeia, com capacitação e pesquisa para desenvolver mudas livres de doenças.
Hélio também aguarda a concessão, pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi), da Indicação Geográfica (IG) do gengibre de Tapiraí, o que deve valorizar ainda mais o produto da região.