O cafeicultor Eduardo Bortolini, de Linhares (ES), analisa o mercado e mantém a prudência. Com a colheita em andamento na Fazenda Chapadão, ele conta que está entregando o que já foi contratado. O excedente, espera por preços mais favoráveis às margens do negócio.
Os Bortolini plantam 310 hectares de café conilon, voltado principalmente para exportação. O cafezal tem mais de 1,2 milhão de árvores. A fazenda possui vários tipos de certificação, o que lhe permite chegar a diversos mercados.
A colhedora já passou por 40% da plantação. Eduardo afirma que se surpreendeu. Esperava uma safra menor que a do ano passado, mas não uma queda tão grande quanto a vista até agora. Nos talhões mais antigos, a redução chegou a 30%, que o cafeicultor espera compensar com a boa produtividade dos cafezais mais novos.
“Estamos com uma quebra que a gente não esperava”, resume. “Estou cumprindo contrato vendido, e o excedente vai depender do fluxo de caixa”, acrescenta.
O Espírito Santo é o principal produtor de café conilon do Brasil. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima a produção capixaba da variedade em 13,56 milhões de sacas de 60 kg, queda de 4,2% em comparação com 2025 (14,15 milhões de sacas). Em seu mais recente relatório, a Conab destacou que o desempenho da safra passada de conilon, que cresceu, limitou o potencial produtivo da atual no Estado. A produtividade estimada é a segunda maior da série histórica. A produção total de conilon no Brasil deve ficar próxima da estabilidade, passando de 20,77 milhões para 20,92 milhões de sacas (+0,8%).
“Estamos segurando um pouco e esperando o mercado ainda entender essa quebra toda”, diz Eduardo Bortolini.
Em boletim divulgado nesta semana, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) informou que a situação atual da safra de café conilon está ajudando a dar firmeza aos preços da variedade no mercado nacional. O indicador medido para o conilon, com base no mercado do Espírito Santo, acumula elevação de 6,9% no mês, até a quinta-feira (18/6), quando chegou a R$ 1.018,24 a saca. É o segundo dia seguido nas últimas semanas que a referência volta aos R$ 1.000, o que não ocorria desde 27 de março.
Na bolsa de Londres (ICE Futures Europe), os preços subiram na quinta-feira (18/6). Setembro ajustou para US$ 3.629 por tonelada (+0,19%) e novembro para US$ 3.587 por tonelada (+0,36%).
Filho de Eduardo, Rafael Bortolini pontua que, diferentemente do conilon, a produção de arábica deve vir cheia, com efeito nos preços ao longo da safra. A estratégia da Fazenda Chapadão é escalonar as vendas para obter médias de preço que permitam manter a rentabilidade em períodos de margem mais apertada. “O objetivo é nivelar o preço, ter um caixa mais saudável e não sofrer tanto com picos nem quedas. A margem vai estar apertada, o custo de mão de obra subiu, mas, com os preços atuais, ainda é possível segurar”, afirma.
A consultoria de agronegócios do Itaú BBA avalia que, pelo menos por enquanto, o mercado de café aponta para uma acomodação. A perspectiva de safra cheia, particularmente no Brasil, leva a uma leitura de oferta mais confortável. A Conab estima uma safra total de café (conilon e arábica) em 66,7 milhões de sacas (+18%), número inferior ao de consultorias privadas, que apostam em mais de 70 milhões de sacas.
O trabalho de campo avança, mas ainda com atraso. A Safras & Mercado estima que, até 17 de julho, 39% da produção nacional estava colhida, ante 43% no mesmo período de 2025 e média de 40% nos últimos cinco anos. A colheita do arábica chegou a 29% (34% em 2025) e a do conilon a 59% (igual a 2025).
A comercialização também está em ritmo inferior. Até 11 de junho, 19% da produção de café estava vendida, contra 22% no ano anterior e média de 29% nos últimos cinco anos. O analista Gil Barabach explica que ainda há baixo volume de café no mercado, o que não permite aumentar o ritmo de vendas.