A Austrália atingiu sua cota de exportação de carne bovina para a China em 2026 nesta quinta-feira (18/6). Em comunicado emitido já na manhã de sexta-feira (19/6) no país asiático, o governo chinês informou que novas remessas da proteína australiana serão taxadas com tarifa adicional de 55%, conforme previsto na salvaguarda comercial, a partir da meia-noite de 20 de junho. A cota australiana é de 205 mil toneladas em 2026. As exportações para a China haviam atingido 80% em 16 de maio e 90% em 2 de junho. Com a sobretaxa, a taxação total sobre novas cargas chega a 67%.
No Brasil, o avanço do preenchimento da cota também mexe com as operações dos frigoríficos e da cadeia pecuária. A expectativa é que a China anuncie em breve a marca de 80% do volume autorizado aos abatedouros brasileiros, de 1,1 milhão de toneladas. As empresas têm programado produzir os cortes específicos para o mercado chinês até o fim desta semana. Depois, serão mantidas apenas as operações de embarques até o fim de junho.
O diretor-executivo de Originação da JBS, Eduardo Pedroso, afirmou que a salvaguarda chinesa vai gerar um impacto de restrição de volume de exportação ao país, o que pode causar acomodação do preço da arroba do boi no mercado interno nos próximos meses. “Se nós vamos passar alguns meses, devido às altas tarifas, praticamente impossibilitados de exportar para lá, certamente tem um impacto de volume, e esse volume deve ter alguma consequência de acomodação de preço. Ainda é prematuro para dizer qual será, mas é uma situação que, honestamente, a cadeia já esperava por isso”, declarou a jornalistas nos bastidores do Fórum Internacional da Agropecuária (Fiap).
Segundo ele, apesar das mudanças e adaptações nas estratégias comerciais das plantas habilitadas para a China (a JBS tem 18 unidades com aval), há oportunidades de busca de outros mercados para redirecionar cargas. O cenário de déficit global de oferta da proteína favorece o Brasil. “Existe uma grande oportunidade na mesa, de o Brasil seguir buscando a abertura de novos canais de escoamento, novos canais de venda, porque o déficit global é estrutural e é bem maior do que o volume reduzido pela China durante o período da salvaguarda”, opinou.
Pedroso ressaltou que as negociações para alcançar novos mercados dependem de acordos sanitários e não são medidas instantâneas, mas demonstrou otimismo com o futuro próximo para a cadeia pecuária brasileira. Segundo ele, o pecuarista não pode “esmorecer” diante da “pequena turbulência” vivida atualmente com as restrições de volume para exportações para a China. “O horizonte é muito próspero, o cenário da pecuária brasileira para os próximos anos é fantástico. Podemos afirmar que estamos na atividade certa, no país certo, na proteína certa. A mensagem ao produtor é para não esmorecer nesse momento, nesse ato que dá uma pequena turbulência, mas logo em seguida a gente acredita que tudo se reestabeleça como deve ser”, completou.
O diretor da JBS também destacou que a forma de contabilização da cota pela China, pela data de entrada da carne no país, e o período de 30 a 60 dias do transporte marítimo dos contêineres geram incertezas no mercado local. “Estamos fazendo conta por estimativa, ninguém tem certeza exatamente de qual será a data cravada de que o volume será completado”, disse. Essa incerteza deixa exportadores e importadores mais cautelosos, pois ninguém quer assumir o ônus das sobretaxas de 55% se aplicada. “Fica o impasse e aí, naturalmente, a coisa vai desacelerando, dado que a progressão da entrada da China, mais do que está em trânsito e o que está produzido, por estimativa, a gente já calcula que realmente estejamos terminando a cota do ano vigente”, concluiu.