Projeto de reestruturação hídrica impulsiona produção de mel e renda no Rio Grande do Norte

Um novo projeto vem transformando a realidade de 30 famílias de comunidades indígenas e assentamentos rurais em João Câmara, no Rio Grande do Norte. A iniciativa, desenvolvida pelas companhias energéticas CPFL Energia e State Grid em parceria com o Sebrae, surgiu a partir de uma ação de reestruturação hídrica para ampliar o acesso à água na região. Com o avanço do trabalho, o projeto passou a incorporar em 2024 atividades como apicultura, meliponicultura, quintais produtivos e geração de energia solar em espaços coletivos.

“Quando levamos água potável para a região, percebemos que a vulnerabilidade dessas comunidades era muito maior. A partir daí, começamos a pensar em outras formas de contribuir”, explica Rodolfo Sirol, diretor de Sustentabilidade e Meio Ambiente do Grupo CPFL.

A percepção também é compartilhada por João Batista, de 63 anos, agricultor, apicultor e representante há três décadas do Assentamento Santa Terezinha. Segundo ele, a chegada da empresa à comunidade ocorreu justamente por causa da dificuldade de acesso à água. “Como nós somos representantes do assentamento, a CPFL nos procurou para construir um poço e implementar um sistema hídrico aqui na região. Tínhamos muita dificuldade em ter acesso à água”, conta.

Para João, o abastecimento hídrico continua sendo o principal legado da iniciativa. “Sem dúvida, a maior riqueza que esse projeto nos trouxe foi a água, além dos outros benefícios. Eles já atuavam com projetos sociais, com futebol, cursos de música, além de colocarem energia nas igrejas e na escola”, afirma.

Segundo Sirol, a empresa já mantinha, por meio de seu instituto, projetos de futebol e musicalização para crianças no contraturno escolar. “Esse contato nos permitiu conhecer melhor a realidade local”, diz.

Durante anos, a castanha garantiu parte importante do sustento das famílias. “É um trabalho bastante artesanal e a renda média girava em torno de R$ 900 por mês, com forte dependência de programas sociais”, conta Sirol. Com a chegada dos novos sistemas de abastecimento de água, a produção de mel passou a se mostrar uma alternativa promissora para ampliar os ganhos das comunidades. Sem substituir uma atividade tradicional, o mel começou a complementar a renda familiar e a fortalecer a segurança financeira dos moradores, preservando os costumes locais.

Hoje, o projeto reúne 25 apiários destinados à criação de abelhas com ferrão e cinco meliponários voltados às espécies sem ferrão. Cada núcleo familiar atua em um modelo específico de manejo.

Aprender para produzir

Como muitos moradores já dominavam o cultivo da castanha, o Sebrae concentrou os treinamentos nas novas atividades. Segundo Sirol, as oficinas abordaram desde o comportamento das abelhas até técnicas de manejo e a fabricação das caixas utilizadas na produção. “Foram cerca de 18 meses de trabalho em parceria com o Sebrae, envolvendo capacitação, estruturação da atividade e acompanhamento técnico”, explica.

Os treinamentos se tornaram parte da rotina das comunidades. Em Santa Terezinha, João Batista participa regularmente dos encontros promovidos pelo Sebrae. “Temos reunião mais ou menos de oito em oito dias. Lá, eles nos ensinam o manejo correto do mel e tudo o que é relacionado a ele”, relata.

A capacitação também ajudou agricultores que nunca haviam trabalhado com apicultura. José Junior, de 29 anos, morador da comunidade Serrote de São Bento, entrou no projeto em outubro de 2024 ao lado da esposa e do irmão. “No começo, nós tínhamos dificuldade com o manejo. Apesar disso, sempre tivemos a ajuda de um consultor para nos orientar”, afirma.

A experiência foi semelhante para Carlos Antônio, de 62 anos, morador de Santa Terezinha. Antes da aposentadoria, ele trabalhava com agricultura em um sítio onde cultivava feijão e mandioca. Apesar da experiência no campo, precisou aprender uma nova atividade. “Sempre tivemos apoio dos consultores e do Sebrae. Passávamos mais ou menos quatro horas aprendendo sobre manejo, além da construção das caixas. E tudo sem custo”, conta.

Além de aplicar os conhecimentos na produção de mel, algumas famílias encontraram uma nova oportunidade de negócio. Segundo Sirol, muitos participantes passaram a comercializar as próprias caixas que aprenderam a fabricar. “Muitos já estão atuando até como marceneiros, o que ajuda na renda também”, destaca.

Uma nova fonte de receita

Para Sirol, os resultados já aparecem no campo. “Estive lá em abril e a primeira safra já havia começado. Em maio ocorreu a segunda colheita e, com o aumento das chuvas, ainda pode haver uma nova produção”, relata.

João Batista já sentiu essa mudança na prática. Desde o início do projeto, ele realizou três colheitas e aguarda a quarta. “Eu já tirei mel três vezes, que dá 45 litros de mel, o equivalente a mais ou menos 70 quilos do produto. Com isso, já consegui R$ 1,5 mil”, conta.

O impacto na renda também aparece na experiência de José Junior. Segundo ele, a família viu os ganhos crescerem desde que passou a integrar o projeto. “Antes do projeto, nossa renda mensal era em torno de R$ 400. Agora, gira em torno de R$ 2 mil”, relata. Ele explica que o mel ainda funciona como uma fonte complementar de renda, mas que já representa uma melhora significativa na qualidade de vida.

O projeto investiu R$ 900 mil e atende hoje 30 famílias, com perspectivas de expansão. A combinação de acesso à água, capacitação e diversificação produtiva mostra como iniciativas integradas podem transformar comunidades rurais.

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