Com a indefinição sobre a aprovação do projeto de lei que trata da renegociação das dívidas rurais no Congresso Nacional, agricultores têm postergado o pagamento de parcelas de financiamentos, elevando os índices de inadimplência no campo. Em algumas instituições financeiras, o ritmo dos atrasos nas prestações dobrou em junho, às vésperas do anúncio do Plano Safra 2026/27, previsto para esta terça-feira (30/6), e sem uma solução definitiva para o crescente endividamento do setor.
A politização do tema e a falta de clareza sobre o desfecho de eventuais medidas de socorro ao campo agravam o cenário, segundo fontes do mercado financeiro. Executivos dos principais bancos e cooperativas financeiras do país relataram que o nível de atrasos nos pagamentos de crédito rural aumentou em maio e junho em comparação com anos recentes. O ambiente está “contaminado” pela discussão política em Brasília e por avaliações equivocadas sobre quais dívidas poderão ser enquadradas na renegociação.
Os dados ainda não são visíveis nos balanços do Banco Central. Em abril, as operações de crédito rural em atraso já superavam R$ 15 bilhões. Os saldos “problemáticos”, que incluem parcelas renegociadas, prorrogadas e inadimplentes, ultrapassam R$ 188 bilhões, o equivalente a 21% de todo o financiamento do setor no sistema financeiro. O nível de inadimplência piorou nos últimos meses e chegou a 7,4% entre pessoas físicas em abril.
No Sicredi, a maior cooperativa financeira do país, os atrasos em junho dobraram em relação a abril e maio, passando de 8% para 16% até o fim da última semana. A instituição ressaltou que não são atrasos consolidados. Várias parcelas em atraso não estão contempladas no texto atual do projeto de lei para a renegociação, mas os produtores decidiram atrasar pagamentos e esperar a definição em Brasília. Em conversas, foi constatado que oito em cada dez clientes não liquidaram as contas para aguardar as medidas do governo.
“Temos reforçado a orientação aos associados, até porque a manutenção da inadimplência no que está enquadrado pode excluí-lo do acesso à renegociação no projeto de lei ou eventual medida provisória”, disse Gustavo Freitas, diretor-executivo de Crédito e Negócios do Sicredi. O projeto de lei 5.122/2023 ainda não tem data para ser votado na Câmara dos Deputados. Em caso de aprovação, o texto poderá ser vetado ou judicializado, já que o governo federal não concorda com os termos definidos para a renegociação.
O principal alerta dos agentes financeiros é que, mesmo que a renegociação seja implementada conforme a proposta atual, é preciso estar adimplente para acessar o novo recurso. As regras previstas no texto contemplam operações inadimplentes até abril de 2026. Os contratos do Plano Safra 2025/26, que começaram a vencer em junho, por exemplo, não entrarão na renegociação, alertam os agentes.