Com alta do endividamento, produtores e bancos adotam postura mais cautelosa, diz Sicredi

O elevado nível de endividamento, os custos altos e a perspectiva de margens mais baixas estão tornando produtores rurais e instituições financeiras mais cautelosos na negociação do crédito rural. A avaliação é do Sicredi, que apresentou nesta quinta-feira (2/7) suas projeções para o Plano Safra 2026/27.

“A cautela está dos dois lados. Do produtor e das instituições financeiras, que colocam outras análises e variáveis. Estamos pautados em crescer, mas crescer com qualidade”, afirmou Vitor Moraes, superintendente de Agronegócios do Sicredi, em entrevista coletiva. Gustavo Freitas, diretor executivo de Crédito e Segmentos do Sicredi, reforçou que, na análise de risco, ganham peso a capacidade de pagamento, o planejamento financeiro e a expectativa de receita.

Ele destacou que não há regras pré-estabelecidas e a avaliação varia conforme o histórico do cliente associado à cooperativa. “Se um produtor está muito alavancado, não vou conseguir atender, independentemente da garantia”, disse. Os executivos também informaram que os níveis de inadimplência na instituição aumentaram, mas permanecem abaixo das médias do mercado, o que eleva a cautela, sem comprometer os planos de crescimento.

Em maio, a carteira total de crédito agropecuário do Sicredi atingiu R$ 121 bilhões. Para o Plano Safra 2026/27, a cooperativa planeja emprestar R$ 72,1 bilhões, crescimento de 4,4% em relação à temporada 2025/26, quando liberou R$ 69 bilhões. A meta é formalizar 340 mil operações de crédito rural, contra 320 mil na safra passada.

Do total previsto, R$ 27,6 bilhões serão para custeio, R$ 15,4 bilhões para investimentos e R$ 2 bilhões para comercialização. A concessão via Cédulas de Produto Rural (CPR) deve somar R$ 18 bilhões, alta de 6,5%. Outros R$ 9,1 bilhões serão destinados a linhas atreladas ao dólar, aumento de 57%, com taxa média de 70% da Selic, atualmente em 14,25% ao ano. Segundo Moraes, a estratégia é oferecer esse produto a produtores com receita em dólar, aliando prazos ao fluxo de caixa para reduzir riscos cambiais.

Para a agricultura familiar, a previsão é liberar R$ 13,3 bilhões. Para médios produtores, R$ 14,6 bilhões. Pequenos e médios concentram 88% das operações. O Sicredi espera manter um mix com 52% de recursos controlados e 48% a taxas de mercado.

Sobre o seguro rural, o Sicredi acredita que o governo deve anunciar medidas pontuais para a temporada 2026/27, mas a ausência de um orçamento consolidado prejudica a estratégia, inviabilizando operações em algumas regiões. “É um ano difícil para uma reforma estrutural, mas vejo que ainda sai alguma coisa”, disse Gustavo Freitas. Ele avaliou que o apetite por seguro rural aumentou devido aos extremos climáticos e ao El Niño.

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