Diante dos preços pouco atrativos do trigo e dos impactos do El Niño na qualidade do cereal, produtores do Rio Grande do Sul estão migrando para a canola como principal cultura de inverno. De acordo com a Emater-RS, a área destinada à oleaginosa deve saltar 102,64% em 2026, alcançando o recorde de 353.397 hectares.
“O trigo depende muito das condições de mercado para seu plantio e venda. Já a canola conta com um modelo atrelado às indústrias de biocombustíveis, que subsidiam a lavoura e negociam preços antecipadamente, o que atrai os produtores”, explica Alencar Rugeri, gestor de culturas anuais da Emater-RS.
Um exemplo é Tales Pezzini, de Santa Bárbara do Sul (RS), que neste ano abandonou o trigo e semeou 130 hectares de canola. Ele conta com suporte técnico da 3tentos, empresa que comprará toda a produção. “O custo travado é de 18 sacas por hectare, e a expectativa é colher de 30 a 35 sacas. Já o trigo não cobre os custos”, afirma.
A 3tentos está incentivando o plantio de mais de 100 mil hectares de canola no estado. A colheita será destinada à fábrica de biodiesel em Ijuí (RS), que recebeu R$ 60 milhões em investimentos. A empresa projeta receber 100 mil toneladas de canola por ano, gerando 40 mil toneladas de óleo para biocombustível.
“Acreditamos que a canola possa alcançar 1 milhão de hectares no Rio Grande do Sul em três a cinco anos, dependendo da efetivação da lei Combustível do Futuro”, destaca Luiz Augusto Dumoncel, diretor de Operações da 3tentos.
Na Agropecuária Piraju, em São Luiz Gonzaga (RS), a família Piccoli reduziu a área de trigo de 800 para 500 hectares e ampliou a de canola de 200 para 350 hectares. Também plantaram 100 hectares de carinata, oleaginosa para combustível de aviação. “Optamos pela canola e carinata pela liquidez e pela valorização ligada aos biocombustíveis. O investimento é menor e a chance de rentabilizar é maior”, diz Marcondes Piccoli.
Outro diferencial é o seguro agrícola. “O seguro do trigo cobre de 27 a 32 sacas por hectare, mas o custo de produção ultrapassa 40 sacas. Já o seguro da canola é de cerca de 20 sacas, enquanto o custo fica em 15 sacas. Mesmo com perda, ainda há receita”, compara Piccoli.
Com esses incentivos, a canola se firma como alternativa viável e rentável para o inverno gaúcho, impulsionada pela demanda de biocombustíveis e pela necessidade de diversificação nas lavouras.