O veto da União Europeia às exportações de carnes do Brasil, que entra em vigor em setembro, levou o controlador da JBS, Joesley Batista, a pedir pessoalmente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a proibição do uso de mais antimicrobianos na produção de frangos e bovinos. A informação foi confirmada por fontes do setor ao Valor.
Segundo as fontes, o pedido ocorreu antes de as entidades representativas dos exportadores de carne bovina (Abiec) e de frango (ABPA) solicitarem ao Ministério da Agricultura, no início de junho, a ampliação do número de produtos proibidos no Brasil. O teor do ofício enviado pelas associações também teria partido de Batista.
A solicitação visava demonstrar aos europeus maior rigor no controle dos antimicrobianos no país. Procurada, a JBS não comentou o assunto.
Em maio, a Comissão Europeia informou que excluiu o Brasil da lista de países autorizados a exportar ao bloco produtos de origem animal, como carnes, pescados e mel. Os europeus alegam que o país não cumpre exigências do bloco em relação ao uso de antimicrobianos na produção animal. A suspensão começa em setembro.
O veto gerou embate entre governo, indústria e pecuaristas. O Ministério da Agricultura afirma que o setor privado deveria ter implementado sistemas de segregação da produção para atender os europeus. Já os pecuaristas se opõem ao veto de mais medicamentos, argumentando que alguns itens proibidos pelos europeus, mas autorizados no Brasil, são necessários para a produção de gado bovino cuja carne é vendida a outros mercados.
Na quarta-feira (8/7), representantes da indústria, de pecuaristas e do governo se reuniram na Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em Brasília, para tentar alinhar uma estratégia de ação. No encontro, discutiu-se a necessidade de decidir entre segregar animais destinados à Europa ou banir antimicrobianos em todo o Brasil. Novas reuniões estão previstas nas próximas semanas.
De acordo com uma fonte, o Ministério da Agricultura estaria inclinado a concordar com o aumento no nível de proibição de antimicrobianos no Brasil, em linha com a solicitação dos frigoríficos.
Após a decisão da Comissão Europeia, o governo apresentou aos europeus um protocolo privado homologado pelo Ministério, que prevê o acompanhamento da vida do animal do nascimento ao abate. Para a carne bovina, cujo ciclo produtivo é mais longo, o Ministério pediu um período de transição, já que animais nascidos agora só serão certificados em ao menos dois anos. A proposta previa manter embarques de carne de animais rastreados e com garantia de não uso dos insumos nos últimos nove meses de vida, com controle total das exportações em 2029. Os europeus rejeitaram a ideia.
O impacto anual da suspensão para a carne bovina é estimado em US$ 1 bilhão.