Assim como ocorre com soja, milho e boi gordo, a possibilidade de negociar contratos futuros para o leite está sendo incentivada por especialistas e avaliada por produtores rurais. O mercado futuro oferece maior previsibilidade sobre o valor a ser recebido pela produção, reduzindo a volatilidade dos preços e dando mais segurança financeira ao setor.
O tema foi destaque na Expoleite, feira promovida pela Capal Cooperativa Agroindustrial em Arapoti, nos Campos Gerais do Paraná, entre os dias 2 e 4 de julho. “Estamos atuando de forma educacional, ainda com cautela, mas acreditamos que, em momentos de grandes oscilações de preço do leite, esse tipo de ferramenta pode representar um seguro para a propriedade e possibilitar investimentos”, avalia Dinarte Garrett, coordenador de Pecuária Bovinos da Capal.
A cooperativa comercializa 12 milhões de litros de leite por mês, de produtores do Paraná e de São Paulo. A produção é destinada às unidades de beneficiamento do grupo Unium (mantido por Frísia, Castrolanda e Capal), nos municípios paranaenses de Castro e Carambeí, e no parque industrial de Itapetininga (SP).
No mercado futuro, os contratos são negociados diretamente entre as partes, no mercado de balcão (OTC), sem listagem em bolsa, para uma data futura com preços já definidos. O instrumento financeiro de proteção (hedge) visa minimizar os riscos das oscilações do preço do leite e está em funcionamento no Brasil desde 13 de maio.
A ferramenta foi lançada pela consultoria StoneX Leite Brasil, com apoio do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea – Esalq/USP) e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). No Paraná, o Sistema Faep também atua na difusão do formato.
Desconfiança entre produtores
A novidade ainda desperta desconfiança. “Já ouvi falar, mas não sei se vai funcionar, não tenho informações corretas ainda”, diz o produtor Wilko Laurens Verburg, de Arapoti. Em sua propriedade, a produção é de 19 mil litros de leite por dia, com 460 vacas em ordenha mecanizada. “Hoje, a gente precisa ter eficiência na gestão para uma produção de qualidade. Por outro lado, quanto aos preços, não estou otimista. A partir de setembro deve ter nova queda”, acredita.
A produtora Ellen Biersteker, também de Arapoti, considera o mercado futuro para o leite um tema complexo. “Não cheguei a me aprofundar, mas se for para melhorar a rentabilidade, pode ser válido. Com o leite, a gente produz o mês inteiro e não sabe quanto vai receber. Tem projeções, mas que só se confirmam na entrega do produto”. Ela destaca que, diferentemente de outras atividades do agro, o leite é perecível e tem curto prazo para ser comercializado. Com 380 vacas em lactação, a produção diária em sua propriedade é de aproximadamente 11,4 mil litros.
Educação e adesão gradual
De acordo com Dinarte Garrett, da Capal, o objetivo das ações educativas é levar informações para que o produtor possa atuar de maneira segura no mercado futuro. “É algo novo no Brasil, estamos avaliando o cenário para ver as melhores oportunidades com grupo de produtores ou situações individuais”. Ele comenta que ainda não há cooperados utilizando a ferramenta, mas há muitos interessados.
O preço do leite pago ao produtor associado está girando em torno de R$ 2,75 a R$ 3, variável conforme tabela de qualidade. Garrett destaca que entre as características dos produtores da região está o investimento em genética e ambiência dos rebanhos, e que a Capal atua para aprimorar indicadores e otimizar custos.
Segundo Marianne Tufani, consultora em gestão de riscos da StoneX, a proposta da empresa é desmistificar o mercado futuro como modelo de negócio. O instrumento vem sendo apresentado para produtores de todo o país e também para laticínios e cooperativas. “Os produtores têm muitas dúvidas, mas estão demonstrando bastante interesse”, afirma.
De acordo com ela, a opção está obtendo boa aderência, e os primeiros contratos devem ser fechados nas próximas semanas. Marianne diz que a ferramenta já é consolidada fora do país, principalmente na Europa, Estados Unidos, Nova Zelândia e Ásia. “A opção foi lançada há 30 anos lá fora pela StoneX, que foi a pioneira, e levou em torno de quatro anos até que os produtores entendessem o objetivo”, explica.
Como funciona
A operação ocorre no mercado OTC (Over-The-Counter), ambiente de negociação descentralizado fora das bolsas de valores tradicionais. A corretora StoneX utiliza os indicadores do Cepea para a liquidação dos contratos: Leite UHT Sudeste (R$/litro) e Queijo Muçarela Sudeste (R$/kg), ambos de divulgação diária; e Leite em Pó Industrial 25 kg São Paulo (R$/kg), de periodicidade semanal.
O lote mínimo é de 40 mil litros de leite ao produtor, mas é possível fechar contratos via laticínios e cooperativas, o que pode beneficiar produtores com volume menor. “É uma solução muito demandada pelo mercado, devido ao aumento de volatilidade e da falta de previsibilidade do setor. A principal vantagem é que o produtor consegue se antecipar, planejar investimentos, aumentar escala e ter saúde financeira de longo prazo”, detalha.
Esse modelo de negócio, aberto a produtores e indústrias, não altera a comercialização física do produto.