O governo dos Estados Unidos deve decidir, nesta quarta-feira (15/7), se aplica uma tarifa de 25% sobre produtos do Brasil, como resultado de uma investigação sobre práticas comerciais que colocou sob suspeita. A imposição da medida preocupa segmentos do agronegócio que têm no mercado americano uma importante fonte de receita de suas exportações.
No início do mês, representantes de vários setores apresentaram seus argumentos. A intenção era tentar convencer as autoridades americanas de que um novo tarifaço seria prejudicial não apenas às cadeias produtivas, mas também à própria economia local, com aumento de preços e inflação para os consumidores.
Um desses segmentos é o de café solúvel. Nos Estados Unidos, o produto é usado na forma pura e como ingrediente para a indústria de bebidas prontas à base de café. Dados da própria Associação Americana de Café (NCA, na sigla em inglês) apontam que pelo menos 30 milhões de americanos consomem o produto.
Diferentemente das outras categorias, como o torrado e moído e o grão, o solúvel ficou de fora da lista de exceções ao tarifaço, que garantiria isenção de cobrança sobre o produto. A intenção da indústria brasileira é evitar uma nova tarifa, além de conseguir a inclusão na taxa zero.
Até a realização das audiências, a avaliação dos representantes da indústria e de exportadores de café era a de que o ambiente de negociações estava melhor do que o de rodadas anteriores de discussão sobre o assunto. “Quando se trata de café, Brasil e Estados Unidos são indispensáveis um ao outro”, disse o diretor-geral do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), Marcos Matos, durante uma das audiências públicas. “Projeta-se que o consumo interno de café nos EUA seja de 25,5 milhões de sacas. E o Brasil responde por mais de 30% do mercado de café dos EUA, tornando-se o principal fornecedor do país”, acrescentou.
Pontos de tensão
O mercado de etanol é ponto de tensão nas relações bilaterais. Os Estados Unidos acusam o Brasil de prejudicar o comércio do biocombustível ao impor tarifas de importação. Segundo a National Corn Growers Association (NCGA), entidade que representa produtores de milho dos EUA, a decisão brasileira de estabelecer, em 2017, uma tarifa de 20% e uma cota tarifária para o biocombustível americano fez o mercado brasileiro “praticamente evaporar” para os exportadores dos Estados Unidos. Após idas e vindas, a tarifa foi restabelecida e, desde 1º de janeiro de 2024, permanece em 18%, segundo a entidade.
“Os produtores de milho dos EUA sentiram os efeitos da tarifa à medida que o acesso ao mercado sofreu uma queda acentuada”, afirma, em documento, o vice-presidente da NCGA, Matt Frostic. Nas audiências, representantes do setor brasileiro de etanol argumentaram que a medida segue as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e não representam retaliação.
O avanço de atividades agrícolas sobre áreas de desmatamento é outra alegação da Representação Comercial dos Estados Unidos (USTR) para investigar o Brasil. Argumento contestado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). A entidade apresentou dados indicando que o desmatamento na Amazônia Legal reduziu 56% entre 2011 e 2025.
A indústria de máquinas e equipamentos agrícolas foi outra que defendeu a isenção de tarifas. O argumento é de que a taxa prejudicaria a própria indústria americana, já que mais de 80% das exportações do Brasil para os Estados Unidos são entre unidades de negócios da mesma empresa.
Os exportadores de mel do Brasil também têm razões para se preocupar. O setor já está sujeito a uma taxa de importação de 12,5%. Se houver uma nova sanção, a tarifa total poderá chegar a 37,5%. O Brasil atende a 75% da demanda americana por mel orgânico. Nas contas da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), cada dólar importado gera US$ 5,50 para a economia dos Estados Unidos. “Os 40% são um negócio muito alto, principalmente porque o mel brasileiro é orgânico, é mais caro naturalmente. Então, isso tira muito da nossa competitividade”, pontua Renato Azevedo, presidente da Abemel.
A cadeia produtiva de arroz também participou das audiências. O setor foi questionado por que o arroz americano não substitui o brasileiro. A Associação Brasileira da Indústria de Arroz (Abiarroz) observou que o arroz brasileiro atende um perfil específico de consumidores, como a comunidade latino-americana.