A indústria brasileira de carne bovina vê como “grande possibilidade” a interrupção das vendas para a União Europeia a partir de setembro. O motivo é a falta de comprovação técnica de que os animais abatidos para o mercado europeu não receberam antimicrobianos durante o ciclo de vida.
O governo brasileiro tenta negociar com o bloco um prazo de transição para implementar o controle completo do histórico dos bovinos, além de estudar a proibição geral do uso desses insumos no país como garantia de cumprimento das exigências futuras. Pecuaristas são contrários à medida, e a cadeia produtiva busca uma solução conjunta.
O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, afirmou que ainda não há decisão governamental sobre o pedido de proibição dos antimicrobianos, apresentado pelos frigoríficos. Ele destacou que, embora a UE represente cerca de 6% do volume e do faturamento das exportações brasileiras, o mercado é estratégico para a formação de preços internos e para a reputação do produto nacional.
“É um mercado com alto valor agregado, que importa cortes que não têm destinação na Ásia. As exportações para lá ajudam a tirar pressão para formação de preço aqui”, disse Perosa em coletiva de imprensa nesta quinta-feira (16/7). Ele acrescentou que atender à UE também traz uma reputação “muito grande”. “Quando a UE decide por uma atitude, impacta o restante dos mercados”, completou.
Em 2025, o Brasil vendeu 128 mil toneladas de carne bovina para o bloco, com faturamento próximo de US$ 1 bilhão. Uma eventual interrupção pode durar ao menos dois anos, tempo necessário para monitorar os bovinos desde o nascimento até o abate, certificando a ausência de antimicrobianos.
Na semana passada, houve reunião entre frigoríficos, pecuaristas e governo na sede da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva questionou o ministro da Agricultura, André de Paula, sobre o andamento das conversas. A Câmara Setorial de Carne Bovina do Ministério da Agricultura debaterá o assunto na próxima semana.
Perosa ressaltou que a intenção é apoiar as autoridades brasileiras para que o fluxo comercial com a UE não seja interrompido. Ele também mencionou que o esgotamento da cota de exportação para a China torna 2026 ainda mais desafiador para a cadeia pecuária. A Abiec estima queda de 10% no volume de vendas externas em relação a 2025, quando foram embarcadas 3,5 milhões de toneladas.
“Temos um ano de 2026 desafiador por conta da implementação das cotas chinesas, dessa negociação com a União Europeia, com grande possibilidade de não conseguirmos vender mais para a UE a partir de setembro, com período de adaptação, fiscalização do governo e da produção brasileira”, afirmou Perosa. Ele ainda citou desafios internos, como acesso a crédito e custos de produção, e os efeitos já visíveis, como férias coletivas e possíveis layoffs em plantas frigoríficas.