Produtor rural obtém crédito com vacas tokenizadas como garantia inovadora

Em meio ao aumento do endividamento e das recuperações judiciais no setor agropecuário, uma parceria entre duas empresas trouxe uma solução criativa: utilizar o rebanho monitorado como garantia para crédito. Dez vacas da Fazenda Engenho Velho, em Imbituva (PR), avaliadas em R$ 120 mil, garantiram uma Cédula de Produto Rural Financeira (CPR-F) de R$ 100 mil.

O título foi emitido pelo produtor em favor da BMP Sociedade de Crédito Direto, que liberou os recursos. Na sequência, a BMP cedeu os direitos creditórios da CPR para a fintech Target FIDC, que passou a ser a credora e registrou a operação na B3, com base nas informações biológicas de cada animal. Os dados são monitorados pela Cowmed, startup que utiliza coleiras com sensores e inteligência artificial para acompanhar indicadores como saúde, comportamento, ruminação e bem-estar do rebanho.

Para formar o lastro da operação (o rastreamento do plantel), as vacas foram “tokenizadas”. Cada uma recebeu um registro digital, um “RG” protegido por blockchain, com dados de saúde, comportamento e desempenho coletados pelas coleiras. Um código digital criptografado reúne as informações. O registro eletrônico é vinculado à CPR, permitindo acompanhar as condições do rebanho sem necessidade de vistorias presenciais na propriedade.

O diretor da Target FIDC, Humberto Brenner, explica que instituições financeiras costumam aplicar deságios na avaliação por falta de informações de saúde e localização. Um animal de R$ 20 mil, por exemplo, pode ser avaliado em R$ 8 mil. “Com o monitoramento, essa incerteza é eliminada”. As vacas podem ser vendidas a qualquer momento, e o produtor pode repor animais quando necessário, desde que mantenha uma relação mínima de 1,2: para cada R$ 100 financiados, a garantia deve valer pelo menos R$ 120, como na operação da fazenda de Imbituva.

Brenner ressalta que crédito com animais como garantia não é novidade. A diferença está no monitoramento contínuo e no registro da operação por meio de uma CPR na bolsa. Ele afirma que a disparada nas recuperações judiciais e no endividamento dos produtores torna atrativa a oferta dos animais. “Os bancos vão exigir cada vez mais garantias reais e novas informações”.

Thiago Martins, CEO da Cowmed, afirma que a tokenização das vacas de Imbituva é a primeira em um contrato de financiamento na B3. O objetivo é dar ao produtor uma nova opção de garantia em meio às condições econômicas ruins para o agro. “A operação permite que o produtor tenha acesso ao crédito mais atrativo em custo e limite. Queremos conectar o produtor e a financeira com uma nova alternativa.”

Atualmente, a Cowmed possui 100 mil vacas monitoradas em 1.200 fazendas no Brasil, Estados Unidos, Canadá, Uruguai, Paraguai e Bolívia. O valor das vacas leiteiras com colar é estimado em R$ 2 bilhões, segundo Martins. O CEO projeta que 20% do rebanho atual seja oferecido como garantia para tomada de crédito nos próximos dois anos, o que representaria R$ 400 milhões em operações de financiamento. Depois da primeira operação, outros quatro produtores brasileiros estão sob avaliação pela Target FIDC para tomarem crédito com suas vacas monitoradas como garantia. Para 2026, Target e Cowmed esperam liberar R$ 5 milhões em crédito com esse tipo de operação.

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