Azeite brasileiro conquista prêmios internacionais, mas enfrenta desafios de reconhecimento no país

Pesquisa com 827 consumidores revela que brasileiros ainda desconhecem características e benefícios do óleo de oliva produzido no país.

Por Mariana Letizio — São Paulo 21/07/2026 13h31 Atualizado 21/07/2026 13h32

Apesar de representar menos de 1% do consumo brasileiro, os azeites nacionais têm se destacado em premiações internacionais e consolidado sua reputação pela qualidade e pelo controle da cadeia produtiva, segundo Paulo Renato de Sousa, professor e pesquisador da Fundação Dom Cabral (FDC). Somente em junho deste ano, na 11ª edição do EVO IOOC Italy, uma das principais premiações internacionais de azeites extravirgens, os produtores brasileiros conquistaram 98 medalhas de ouro e 29 de prata entre as 139 amostras enviadas ao concurso. Além do Brasil, participaram da edição produtores da Líbia, Estados Unidos, Grécia, Espanha, Emirados Árabes Unidos, Argélia, Turquia, Tunísia e Itália.

Foi justamente o reconhecimento que o azeite brasileiro vem conquistando no cenário internacional que despertou o interesse de Sousa em estudar a cadeia produtiva do setor e seus consumidores. “Como eu já acompanhava o setor de azeites e sou admirador desse produto há bastante tempo, surgiu. Para minha surpresa, conseguimos realizar um volume muito grande de entrevistas com produtores em pouco tempo, justamente pela preocupação que esses atores têm em manter a qualidade do produto”, explicou o professor.

Segundo Sousa, ainda é cedo para saber se a produção nacional alcançará uma escala industrial relevante. Apesar disso, a prioridade dos produtores continua sendo preservar esse padrão. “E isso se reflete diretamente nos prêmios que o Brasil vem conquistando, porque essa ainda é uma indústria relativamente nova”, aponta.

O que diferencia o azeite brasileiro

Durante a pesquisa, Sousa percebeu que os próprios produtores costumam definir o azeite brasileiro como o “suco da azeitona”, justamente por preservar características mais próximas do produto em seu estado natural. “Ele não passa pelos processos industriais mais extensos que muitos azeites importados enfrentam. Somos o segundo maior mercado consumidor de azeite do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, mas quando você prova um azeite brasileiro de qualidade percebe uma diferença muito grande”.

Essa característica, segundo Sousa, ajuda a explicar o destaque que o azeite brasileiro vem conquistando. Ainda assim, transformar esse reconhecimento em preferência do consumidor brasileiro continua sendo um dos principais desafios do setor. “Quando chega à gôndola do supermercado, muitas vezes ele escolhe o produto com base na acidez. Porém, a acidez é uma característica química que o consumidor comum não consegue avaliar adequadamente”, explica. “Questões como sustentabilidade, por exemplo, ainda não são decisivas na escolha. Isso acontece porque essa indústria é muito nova para nós”.

Segundo o professor, a produção de azeite no Brasil começou há menos de 20 anos e ainda passa por um processo de amadurecimento. Além disso, os olivais levam anos até atingir sua capacidade produtiva. “O consumidor brasileiro ainda está aprendendo a reconhecer um azeite de qualidade. Mas, quando experimenta, acontece algo parecido com um vinho ou um queijo de qualidade: dificilmente volta atrás”.

Origem ainda pesa pouco na decisão de compra

Na avaliação de Sousa, a rastreabilidade, ou seja, conhecer a origem do produto, ainda influencia pouco a decisão de compra do consumidor brasileiro. “Acredito que seria importante um esforço maior, inclusive por parte do governo, para educar o consumidor sobre a qualidade do azeite de oliva”, diz. O pesquisador também afirma que muitos consumidores também deixam em segundo plano os benefícios nutricionais do produto. “Se observarmos a dieta mediterrânea, por exemplo, veremos que ela é reconhecida mundialmente como uma das mais saudáveis, e o azeite é um dos seus principais componentes. Portanto, o consumidor brasileiro ainda precisa avançar no entendimento de que consumir um produto de qualidade também é um investimento na própria saúde”.

Quando a falta de informação favorece fraudes

Para Sousa, uma das informações mais importantes que precisa chegar ao consumidor é a origem do azeite. “O azeite é considerado um dos produtos mais falsificados do mundo. Frequentemente vemos notícias sobre lotes proibidos ou retirados do mercado”. Segundo ele, as empresas tendem a oferecer aquilo que o consumidor procura. Se o comprador não estiver preparado para identificar qualidade, produtos adulterados continuarão encontrando espaço no mercado. “A pessoa precisa entender que, ao ignorar fatores como origem e rastreabilidade, ela mesma pode sair prejudicada, porque corre o risco de consumir um produto adulterado”.

Como exemplo, o pesquisador cita os azeites comercializados com origem alemã. Segundo ele, a Alemanha não produz azeite em escala relevante. O país compra produtos de diferentes regiões da União Europeia, mistura esses azeites e depois os redistribui. Assim, um rótulo indicando origem alemã não significa, necessariamente, que o produto tenha uma origem única ou claramente definida. “Quando encontramos um azeite muito barato, é importante desconfiar. A cadeia produtiva do azeite é complexa, depende de fatores como altitude, clima e época adequada de produção. Valores muito baixos podem indicar um produto de qualidade duvidosa”.

Um mercado promissor, mas ainda distante do consumidor

Pelo entusiasmo que encontrou entre os produtores durante a pesquisa, Sousa acredita que o mercado brasileiro de azeites continuará em expansão nos próximos anos. Para ele, um dos principais diferenciais do setor é o espírito de colaboração. “Isso ficou muito claro. Existe uma rede colaborativa muito forte, em…”

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