O agravamento da guerra entre Ucrânia e Rússia está afetando diretamente o escoamento de grãos pelo Mar Negro. Armadores suspenderam temporariamente a chegada de navios para exportações agrícolas nos portos ucranianos após ataques russos contra embarcações e infraestrutura portuária nas últimas semanas, segundo o ministro da Agricultura da Ucrânia.
De acordo com a agência Reuters, o país perdeu cerca de um terço de sua capacidade de exportar grãos pelos portos da região devido aos ataques. Desde 2023, a Ucrânia utiliza um corredor marítimo no Mar Negro para escoar grande parte de sua produção agrícola.
O ministro interino das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha, afirmou na quarta-feira (22/7) que a Rússia atacou ao menos três navios civis de carga nos últimos dias. “Hoje, nenhum navio atravessou o corredor marítimo da Ucrânia no Mar Negro, justamente no pico da colheita. Trata-se de terrorismo econômico e humanitário deliberado”, escreveu Sybiha na rede social X. Ele acrescentou que a Ucrânia solicitou uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU para segunda-feira (27/7).
Do lado russo, o governo está oferecendo subsídios para o transporte ferroviário de grãos até portos alternativos, enquanto ataques de drones ucranianos no Mar de Azov ameaçam os embarques do maior exportador mundial de trigo, informou a Bloomberg. O governo russo cobrirá 90% dos custos tanto dos vagões carregados com grãos quanto do retorno dos vagões e contêineres vazios. Os embarques pelos portos do Mar de Azov, responsáveis por cerca de um quarto das exportações russas de grãos e oleaginosas, estão paralisados há 11 dias devido à intensificação dos ataques ucranianos.
A Ucrânia intensificou a pressão sobre a economia russa ao atingir refinarias de petróleo, portos e embarcações, enquanto a invasão em larga escala promovida pelo Kremlin entra em seu quinto ano. Moscou, por sua vez, segue atacando a infraestrutura portuária ucraniana, interrompendo a logística marítima.
O recrudescimento da guerra fez os preços do trigo dispararem na bolsa de Chicago. O contrato com entrega para setembro subiu 4,09%, cotado a US$ 7,0575 o bushel. Ucrânia e Rússia são importantes produtores globais de trigo, e o aumento das tensões afeta o escoamento do cereal em plena colheita.
Jonathan Pinheiro, analista de gestão de riscos da StoneX, avalia que o cenário pode ser ainda pior que o visto no início do conflito, há mais de quatro anos. “Acredito que seja até um momento mais delicado do que o que tivemos no início da guerra, em 2022, porque é um período de colheita para esses países e de as exportações começarem a evoluir mais. Então, se os portos estão fechados, tanto para a Ucrânia quanto para a Rússia, e esse cenário se mantiver por um período mais longo, as cotações podem subir ainda mais”, afirma.
Luiz Fernando Roque, coordenador de Inteligência de Mercado de Grãos & Oleaginosas na Hedgepoint Global Markets, diz que o mercado já vinha “precificando” o efeito do conflito sobre o mercado de trigo. “Quando voltam a ocorrer ataques, aumenta o prêmio de risco”, completa.