Estudo encontra 25 agrotóxicos no Rio Tietê com níveis acima do permitido

As tentativas de despoluir o Rio Tietê, um dos maiores símbolos de São Paulo, têm surpreendido especialistas não pelos avanços na retirada de poluentes, mas pelos materiais encontrados. Além de cocaína, microplásticos e fármacos, uma pesquisa da ONG SOS Mata Atlântica em parceria com quatro universidades identificou 25 tipos de agrotóxicos espalhados ao longo do rio e de seus afluentes.

Os pesquisadores realizaram o estudo durante uma expedição de cinco dias no ano passado, coletando amostras em 14 pontos, da nascente na região serrana de Salesópolis até a foz no encontro com o rio Paraná, em Itapura. Segundo a equipe, tanto os materiais identificados quanto as concentrações registradas reforçam que os investimentos em despoluição, como o programa Integra Tietê do governo de São Paulo, ainda não são suficientes para conter as diferentes fontes de contaminação.

De acordo com Cesar Pegoraro, biólogo da Fundação SOS Mata Atlântica, o estudo aponta duas possíveis origens para a presença dos agrotóxicos. “A principal, especialmente nas áreas rurais e mais agrícolas, está diretamente relacionada aos insumos utilizados nas lavouras pelo agronegócio”, explica. Os pesquisadores também encontraram resíduos em regiões mais urbanizadas, possivelmente associados a produtos de uso doméstico, como inseticidas, ou ao controle da vegetação urbana. “Muitas cidades utilizam herbicidas, como o glifosato, para esse fim. Embora ele também seja empregado na agricultura, as maiores concentrações que encontramos estavam associadas principalmente às monoculturas de cana-de-açúcar e soja no interior de São Paulo.”

Dos 25 agrotóxicos identificados, uma parcela significativa apareceu em concentrações acima dos limites permitidos pela legislação. “O que mais chamou atenção foi a atrazina. Trata-se de um agrotóxico proibido na União Europeia desde 2004 e que, em alguns trechos analisados, apareceu em concentrações até 25 vezes superiores ao limite permitido pela legislação brasileira”, alerta Pegoraro. A atrazina está entre os agrotóxicos mais utilizados no Brasil para o controle de gramíneas e ervas daninhas de folha larga. A norma brasileira de qualidade da água para consumo humano estabelece o valor máximo permitido (VMP) de 2,0 µg/L para a substância e seus metabólitos.

Pegoraro explica que os agrotóxicos provavelmente chegam ao rio por meio da lixiviação, processo em que a água da chuva infiltra-se no solo, dissolve minerais e nutrientes e os transporta. “Uma coisa bastante perceptível durante o estudo é que as lavouras mecanizadas já não contam com curvas de nível. Essas estruturas funcionam como barreiras naturais para conter o excesso de água da chuva ou da irrigação. Hoje, a mecanização exige terrenos mais planos”, relata. Além disso, a ausência de mata ciliar em muitos trechos elimina outra barreira natural importante contra a lixiviação.

“Também sabemos que, nesse processo de mecanização, há um uso crescente da pulverização por drones e, em alguns casos, ainda por aviões. Quando essa aplicação ocorre em dias de vento ou em áreas muito próximas ao rio, ela pode gerar contaminação direta dos corpos d’água”, acrescenta Pegoraro. Ao deixar o Alto Tietê e entrar no Médio Tietê, em direção ao interior do Estado, a equipe começou a observar concentrações elevadas de agrotóxicos na água. “Em alguns momentos um produto aparecia com maior prevalência; em outros, outro composto se destacava. Mas a presença desses resíduos foi constante até a foz do Tietê”, conta.

No Baixo Tietê, a equipe encontrou poucas áreas protegidas, poucos remanescentes florestais e pouca mata ciliar ao longo do rio. “Esse é um fenômeno interessante porque mostra uma relação entre a perda de qualidade ambiental e a presença de determinados produtos na água”, explica. Para entender a relação entre a paisagem e a contaminação, a equipe realizou um levantamento do uso do solo com apoio do MapBiomas e de imagens de satélite, identificando as atividades predominantes em cada trecho. “Quando analisamos o Médio e o Baixo Tietê, verificamos que o uso predominante do solo está ligado ao agronegócio, especialmente às monoculturas, muito mais do que à pecuária. Existe, portanto, uma associação direta entre a ocupação econômica dessas regiões e o tipo de poluição encontrado no rio”, conclui Pegoraro.

Durante a pesquisa, o Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP observou que o trecho entre Pirapora do Bom Jesus e Barra Bonita apresentou o maior nível de contaminação. Nesse percurso, a água entra classificada como de qualidade “ótima” e sai enquadrada como “regular”. Pegoraro explica que a classificação de boa ou ótima qualidade se baseia no Índice de Qualidade da Água (IQA), que considera alguns parâmetros, mas não inclui agrotóxicos, fármacos e outras substâncias. “O principal risco é que esse índice não capta a realidade da contaminação por agrotóxicos, criando uma falsa sensação de segurança”, finaliza.

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