Inovação e comunidades tradicionais: projeto de R$ 20 milhões restaura manguezais no Rio com drones e biotecnologia

Um ambicioso projeto de restauração de manguezais está em curso no Quilombo do Feital, em Magé (RJ), combinando tecnologia de ponta, conhecimento tradicional e investimento de R$ 20 milhões. Batizado de MangueLab, a iniciativa é liderada pela empresa de serviços marítimos OceanPact em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e comunidades locais.

O objetivo é recuperar 14 hectares de manguezais na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim, criando um protocolo de restauração e monitoramento que possa ser replicado em outros países e gerar créditos de carbono azul — um tipo de compensação ambiental mais valorizada que a tradicional, já que os manguezais removem de cinco a oito vezes mais CO₂ por hectare que florestas tropicais terrestres.

Como funciona o projeto

Iniciado em agosto de 2024, o MangueLab deve seguir até meados de 2027. A área foi dividida em faixas: em metade, o plantio é feito de forma convencional pelos quilombolas, que retiram mudas selecionadas pela pesquisa e as transportam manualmente pela lama, enfrentando insetos e dependendo das marés. Na outra metade, o plantio conta com o auxílio de um drone de carga capaz de transportar 30 quilos de mudas, enquanto outro drone e aplicativos monitoram o processo.

“A pesquisa vai comparar os dois modos de plantio e identificar quão mais rápida e segura se torna a restauração usando o conhecimento das comunidades associado às tecnologias”, explica Geraldo Rios, coordenador do projeto. “Estamos criando um modelo de restauração e mensuração de carbono azul inteligente, rastreável e de alta integridade.”

Impacto social e ambiental

Além da recuperação ambiental, o projeto gera trabalho e renda para os moradores do Quilombo do Feital, muitos deles catadores de caranguejos que viram suas tocas diminuírem com a invasão de samambaias na região. “Após quatro meses de trabalho no campo, já estamos vendo as tocas renascerem e a vida voltar no manguezal”, comemora Valdirene Couto, a Val Quilombola, coordenadora comunitária e presidente do quilombo.

Val, que pertence à quinta geração de catadores de caranguejo, priorizou a contratação de mulheres para o projeto, oferecendo oportunidades de trabalho e crescimento profissional perto de casa, evitando a disputa por vagas escassas na baixada fluminense. O projeto também capacita 30 pessoas para a produção de mel de abelhas sem ferrão, que devem auxiliar na polinização e regeneração do ambiente.

Parceria e investimento

A OceanPact, empresa que nasceu há quase 20 anos atuando em resposta a derramamentos de óleo, hoje oferece serviços marítimos em toda a costa brasileira com foco em inovação e sustentabilidade. Com capital aberto desde 2021, a receita líquida da companhia saltou de R$ 1,7 bilhão (2024) para R$ 2,1 bilhões (2025), alta de 24%. O MangueLab é mais um passo em sua estratégia de proteção e uso sustentável do mar.

Embora o projeto-piloto não comercialize créditos de carbono, ele estabelece as bases para que futuras iniciativas possam gerar créditos de carbono azul, resolvendo gargalos como o difícil acesso aos manguezais e a falta de métricas padronizadas para o mercado global.

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