Inadimplência no crédito rural deve permanecer alta até 2027, apontam analistas

Os níveis de inadimplência do crédito rural no sistema financeiro ficaram em 7,5% entre as pessoas físicas e em 0,8% entre as empresas do agronegócio em junho. No primeiro caso, houve ligeira queda em relação a maio, quando o indicador foi de 7,6%. No segundo, estabilidade. Especialistas, porém, ainda não consideram haver melhora no cenário de endividamento do campo e acreditam na manutenção desses percentuais em patamares altos até o próximo ano.

Os índices de inadimplência registrados em junho de 2026 representam avanços de 0,9 ponto percentual e 0,2 ponto percentual, para pessoas físicas e jurídicas, respectivamente, neste ano. Em 12 meses, o incremento é ainda mais expressivo. Os dados consideram operações de crédito rural com recursos direcionados dos depósitos à vista e da poupança rural.

A inadimplência dos produtores rurais pessoas físicas nas instituições financeiras estava em 0,8% em junho de 2023. Em três safras, o índice cresceu mais de nove vezes. Passou para 1,6% na metade de 2024, para 3,5% em 2025 e para 7,5% agora. O pico foi em fevereiro de 2026, quando chegou a 7,7%, segundo dados do Banco Central.

A inadimplência nas operações a taxas reguladas para pessoas físicas ficou em 3,3% em junho, mesmo patamar de maio. Nos financiamentos a juros de mercado houve recuo, de 13,5% para 13%. Desde o recorde de 7,7% em fevereiro deste ano, a inadimplência entre produtores pessoas físicas oscilou para 7,2% em março, 7,5% em abril e 7,6% em maio.

O percentual de operações inadimplentes é mais equilibrado entre as pessoas jurídicas. Há três anos, estava em 0,4% e dobrou no período. O pico, perto de 6%, foi entre junho de 2019 e outubro de 2020. De janeiro a março deste ano ficou em 0,7% e desde abril está em 0,8%.

Para David Télio, diretor de Novas Estruturas Financeiras da TerraMagna e especialista em crédito para o agronegócio, a inadimplência se mantém alta devido à baixa rentabilidade dos produtores e aos juros altos. Ele acredita na estabilização desses percentuais devido à diminuição da alavancagem no campo, com possível redução dos níveis a partir do próximo ano. “A expectativa é de redução dos níveis de inadimplência a partir de 2027 até 2030, com melhora na rentabilidade e equilíbrio sobre os investimentos”, afirmou ao Valor. Ele disse que o cenário vai impactar a aquisição de insumos na safra 2026/27 e resultar em uma provável redução de área plantada, mesmo com o acesso dos produtores a financiamentos junto a distribuidores e via mercado de capitais.

O saldo “problemático” da carteira ativa de crédito rural ficou em R$ 197,1 bilhões em junho, próximo de 22,5% do total. São R$ 20,9 bilhões em operações atrasadas, R$ 31,6 bilhões em prorrogadas, R$ 106,4 bilhões em financiamentos renegociados ou R$ 38,1 bilhões inadimplentes. Outros R$ 681,8 bilhões de financiamentos estão em curso normal. Em maio, o saldo problemático de R$ 202,4 bilhões, sobre uma base sem problemas também mais alta, de R$ 688,3 bilhões. O saldo total da carteira ativa de crédito rural saiu de R$ 890,6 bilhões em maio para R$ 897 bilhões em junho de 2026.

Nos últimos meses, houve um crescimento das operações em atraso, aquelas não pagas entre 15 e 90 dias após o vencimento. Como mostrou o Valor em maio, representantes de bancos e cooperativas de crédito já relatavam um aumento desse movimento diante da expectativa dos produtores com a aprovação de alguma medida de socorro aos endividados. Em março, a carteira de operações em atraso estava em R$ 14,6 bilhões. Passou para R$ 15 bilhões em abril, R$ 18,3 bilhões em maio e quase R$ 21 bilhões em junho. As carteiras inadimplentes (com atrasos acima de 90 dias) e renegociada ficaram estáveis. Houve recuo no saldo dos financiamentos prorrogados, de R$ 38,4 bilhões para R$ 31,6 bilhões.

No Rio Grande do Sul, onde produtores acumulam frustrações de safras devido a impactos do clima, o saldo problemático das operações de crédito rural aumentou pelo terceiro mês consecutivo, para R$ 42,7 bilhões, ou 39% da carteira ativa nas instituições financeiras. Os vencimentos em atraso cresceram de R$ 1,3 bilhão para R$ 2,1 bilhão entre maio e junho. A maior parte dos recursos está renegociada: R$ 23,2 bilhões.

Consultor jurídico do agronegócio e ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, José Carlos Vaz observou que os dados não incluem as dívidas privadas, fora dos bancos, e ainda não capturaram o efeito da Medida Provisória 1.376/2026, que autorizou a renegociação de débitos nas instituições financeiras em julho. “Parte dos saldos problemáticos pode ter diminuído porque houve pagamento ou porque houve baixa da carteira de crédito”, afirmou. Para ele, a renegociação das dívidas deveria ter sido apresentada há dois anos, quando os produtores tiveram prejuízos por problemas climáticos e pela alta taxa de juros. “Agora vem uma nova crise, por conta das relações de troca e problemas de abastecimento de insumos, as questões geopolíticas, o El Niño e o aperto nas despesas do novo governo”, apontou.

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