Coprodutos do milho sustentam rentabilidade do etanol em meio a preços baixos

O derretimento dos preços do etanol neste ano está dando um alívio ao bolso dos motoristas, mas virou fonte de preocupação para as usinas. As vendas do biocombustível já não estão sendo mais suficientes para cobrir os custos de produção das usinas de cana-de-açúcar e também das de milho. No caso das que utilizam o grão como matéria-prima, são os coprodutos, como DDG (grãos secos de destilaria) e óleo de milho, que têm garantido um pouco de margem de lucro.

De acordo com um levantamento da consultoria Pecege, o custo de produção do etanol de milho tem sido de R$ 2,75 o litro, em média, enquanto os preços que as usinas estão obtendo com a venda está bem abaixo em vários Estados. Em Mato Grosso, o maior produtor de etanol de milho do país, o preço médio está em R$ 2,62 o litro.

O jogo vira quando entram na conta os mercados de DDG e de óleo de milho, voltados à nutrição animal. O Pecege estima que uma usina venda DDG a um preço médio de R$ 0,73 para cada litro de etanol produzido, e óleo a um preço médio de R$ 0,20 para cada litro de etanol. Isso acrescenta à receita das usinas de etanol de milho R$ 0,93 por litro.

Os cálculos consideram uma estrutura de custos média de uma usina flex (que produz etanol tanto do milho quanto da cana-de-açúcar). Mas o raciocínio também vale para as usinas que processam apenas o grão. Os dados ainda são preliminares, mas apresentam uma realidade latente.

“Hoje, com os preços de etanol, o que segura a cadeia do milho acaba sendo óleo e DDG”, afirma João Rosa, diretor do Pecege. Para ele, a situação mostra que essas empresas precisam explorar oportunidades no segmento de nutrição animal.

“O custo total de produção está mais alto que o preço de etanol, mas o DDG faz a diferença”, atesta Rafael Abud, CEO da FS. Segunda maior produtora de etanol de milho do país, que processa apenas o cereal, a companhia vem garantindo margem com vendas de seus DDGs específicos para diferentes segmentos de nutrição animal e também com exportações de DDG e óleo de milho.

“Produzimos em escala produtos de DDG diferenciados, como de alta proteína, alta fibra. Temos um portfólio mais especializado, que traz mais valor. Precificamos melhor e trazemos mais resiliência para as margens”, diz o executivo.

Além disso, a FS também tem obtido preços atrativos com a exportação de óleo de milho para empresas da Europa que o utilizam para produzir combustíveis sustentáveis de aviação (SAF), biodiesel e diesel verde (HVO). “Estamos conseguindo precificar super bem na Europa, com prêmio em relação ao mercado brasileiro. Estão pagando pelo atributo de sustentabilidade”, diz.

A estratégia não é nova na empresa, mas vem segurando os resultados em um ano ruim para o biocombustível, segundo ele. Em média, o DDG e o óleo representam na FS 45% do custo do milho, acima do patamar médio do mercado, entre 35% e 40%.

Na CerradinhoBio, o etanol também não está pagando as contas sozinho. “Ele cobre de 70% a 80% [do custo]. O coproduto está com esse papel de equilibrar [os resultados]”, afirma Renato Pretti, CEO da empresa, que produz etanol tanto do milho quanto da cana e já é a terceira maior produtora de etanol de milho do Brasil.

Segundo Pretti, a empresa tem apostado em força de vendas para desenvolver mais mercados para o DDG. “É uma competência que uma usina tradicional não tem muito”, observa. Segundo ele, embora a CerradinhoBio já tenha “centenas de clientes ativos” de DDG, “muita gente ainda não conhece” o produto.

Uma das estratégias da CerradinhoBio tem sido apostar, por meio de alterações tecnológicas e operacionais, na maximização da extração de óleo de milho, que oferece uma remuneração significativamente maior. Uma tonelada do óleo de milho é vendida entre R$ 5 mil e R$ 6 mil, enquanto a tonelada do DDG é vendida a R$ 1 mil.

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