Em mais um capítulo da tensão política e comercial entre Brasil e Estados Unidos, o governo americano condicionou a recomposição da cota brasileira para exportação de açúcar com tarifa reduzida à apresentação de propostas comerciais “satisfatórias” por parte de Brasília. A informação foi repassada pela adida agrícola brasileira em Washington, Ana Lúcia de Paula Viana, em comunicado ao governo brasileiro esta semana.
Em julho, o governo de Donald Trump cortou em quase 36% o volume autorizado para exportações brasileiras dentro da cota tarifária, reduzindo de 155,9 mil toneladas para 100 mil toneladas a partir de outubro deste ano. O corte de 55,9 mil toneladas, segundo a análise da adida, coincide exatamente com o volume ainda não alocado, o que reforça a percepção de que a medida é usada como instrumento de negociação.
O aviso foi dado pelo vice-secretário de Agricultura dos Estados Unidos, Stephen Vaden, durante discurso no Simpósio Internacional de Adoçantes da American Sugar Alliance, em Vail, Colorado. Vaden afirmou que o Brasil poderá recuperar o volume retirado se apresentar propostas consideradas satisfatórias. Caso contrário, as 55,9 mil toneladas poderão ser redistribuídas a outros 38 países.
Além da redução da cota, Vaden sinalizou a possibilidade de aumento das tarifas cobradas sobre o açúcar exportado fora da cota. Atualmente, as exportações dentro da cota são taxadas em 25%, e as fora da cota enfrentam sobretaxas de 37,5% — ou cerca de US$ 340 por tonelada, o que equivale a uma taxação de aproximadamente 100% do preço do produto no mercado mundial. O governo americano avalia revisar essas tarifas, congeladas desde 2000, e pode utilizar medidas legislativas ou instrumentos investigativos, como a Seção 301.
A adida agrícola brasileira já solicitou esclarecimentos ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sobre os critérios da redução e se a medida é provisória ou definitiva, além de questionar a possibilidade de restituição total ou parcial do volume. O órgão americano respondeu que não poderia fornecer informações além das já publicadas no Federal Register.
Nos bastidores, a negociação em torno do açúcar sempre esteve atrelada aos pedidos de Washington por maior acesso ao etanol de milho dos EUA no mercado brasileiro. Enquanto o Brasil cobra 18% de tarifa sobre o etanol importado dos EUA, os americanos taxam o etanol brasileiro em 25%. Uma fonte do governo brasileiro admitiu que a posição americana é uma pressão clara por melhores condições para o etanol, mas outra fonte afirmou que o assunto não está na mesa atualmente.
Em 2025, o Brasil exportou 437 mil toneladas de açúcar para os Estados Unidos, sendo 292,4 mil toneladas de açúcar bruto de cana, 132 mil toneladas de refinado e 12,4 mil toneladas de demais tipos. A indefinição sobre a cota preocupa especialmente as usinas do Nordeste, que tradicionalmente abastecem o mercado americano.
Por Rafael Walendorff — Brasília, 08/08/2026 10h43