Quando circula por Três Pontas, no sul de Minas Gerais, o advogado Filipe Campos Mendonça é frequentemente cumprimentado com um “Nhaí”, saudação típica da comunidade LGBTQIAP+. A expressão, vinda de fazendeiros heterossexuais, poderia soar como provocação, mas hoje é um reconhecimento. Nhaí também é o nome escolhido por ele e o irmão, Tiago Campos Mendonça, para a primeira marca de café da família que há três gerações planta o fruto na região.
“No início, as pessoas criticavam. Eu acho que o meu pai não gostava muito também e nós pensamos em desistir em alguns momentos. No entanto, a partir dos retornos positivos que recebemos durante as vendas, decidimos continuar”, relata Tiago, diretor financeiro da marca.
A ideia de criar um café LGBT partiu de Filipe, hoje diretor presidente da Nhaí, depois que decidiu abandonar o trabalho no mercado financeiro e voltar para a casa dos pais em busca de descanso em 2023. Entre um repouso e outro, ele foi aprendendo a mexer com o maquinário da fazenda e ajudar no manejo do cafezal. “Começou como um descanso e acabou virando uma profissão”, brinca o cafeicultor.
O retorno às origens, contudo, só foi possível graças a um passo importante dado dois anos antes, quando os dois irmãos decidiram assumir a própria sexualidade para a família. “Tivemos muito medo, inclusive de sermos expulsos de casa, mas quando vimos que teve essa aceitação, abriram-se os horizontes para estarmos mais perto e participarmos do negócio da família”, reconhece Tiago.
O pai, Gláucio Garcia Mendonça, cafeicultor, admite que aceitar a sexualidade dos filhos não foi fácil. “Da primeira vez você leva um baque, né? Mas minha esposa tem uma cabeça muito boa e com o tempo fui amadurecendo a ideia”, afirma. Hoje, ele vende cerca de 800 quilos de café a cada 15 dias para os filhos torrarem e venderem com o rótulo Nhaí — um passo que ele mesmo nunca deu por falta de mão de obra. “Eu já tinha esse plano, mas aí como na fazenda era tudo por minha conta, eu me questionava se compensava fazer isso sozinho”, conta. Com o apoio dos filhos, a família toda está envolvida com a produção de café de qualidade acima de 84 pontos.
Em apenas um ano, o Nhaí teve um aumento de mais de 400% nas vendas após Filipe e Tiago firmarem contrato com uma grande rede de varejo com 45 lojas em São Paulo, além das vendas em Minas Gerais e cafeterias na capital, Belo Horizonte. “A questão da representatividade foi o que mais deu forças para nos afirmarmos como produtores gays num ambiente tão difícil como o agro e para podermos trazer mais pessoas da nossa comunidade para essa luta”, comemora Tiago.