Incêndios na Europa ameaçam produção de azeite e podem elevar preços no Brasil

As ondas de calor e os incêndios que atingem diferentes regiões da Europa neste verão começam a gerar preocupação no setor de azeite. Olivais foram diretamente atingidos pelas chamas na Grécia, Itália e Portugal, enquanto áreas que escaparam do fogo também sofrem com fumaça, cinzas e o estresse provocado por temperaturas extremas. O cenário ocorre justamente em uma fase importante de desenvolvimento das azeitonas para a próxima safra.

Na Sicília, Itália, uma propriedade perdeu árvores e a produção de azeitonas depois que um incêndio atravessou aceiros de até oito metros de largura e chegou aos olivais. Na Grécia, incêndios também avançaram sobre áreas agrícolas, atingindo olivais e florestas na península do Peloponeso.

Apesar dos danos localizados, ainda não é possível dimensionar o impacto total dos incêndios na produção europeia de azeite. O Conselho Oleícola Internacional (IOC) afirmou que acompanha a situação e que é necessário aguardar informações detalhadas das regiões afetadas e a verificação dos danos pelas autoridades nacionais antes de fazer uma avaliação da produção. O órgão destacou que a frequência e a intensidade crescentes dos eventos climáticos extremos são uma preocupação cada vez maior para o setor.

Na Espanha, maior produtora mundial de azeite, a situação até agora é menos dramática em relação aos incêndios que atingiram outras áreas do Mediterrâneo. O azeitólogo e tecnólogo em gastronomia Marcelo Scofano, que vive por lá, afirmou que os grandes incêndios não atingiram plantações importantes de oliveiras. Segundo ele, a principal preocupação para a próxima safra é a sequência de ondas de calor, que pode interromper o processo de lipogênese — formação de ácidos graxos na polpa da azeitona, essenciais para a produção de azeite.

A situação é particularmente relevante porque os dois últimos invernos foram mais chuvosos que o esperado em partes da Península Ibérica, levando os reservatórios espanhóis e portugueses a níveis mais confortáveis após anos de seca. Mesmo com a melhora na disponibilidade de água, as temperaturas extremas mostram como as mudanças climáticas continuam sendo um desafio para a olivicultura mediterrânea.

Para o consumidor brasileiro, o eventual impacto dependerá principalmente da oferta europeia e do comportamento dos estoques. A Associação Brasileira da Indústria de Azeite de Oliva (Ibraoliva) avalia que uma redução da produção e das reservas europeias pode diminuir a quantidade de azeite disponível para exportação e pressionar as cotações. “Azeite importado é uma commodity. Diminuindo a oferta de produto, o preço sobe”, afirmou a entidade.

A expectativa do Ibraoliva é de que o azeite importado vendido nos supermercados brasileiros possa voltar a subir nos próximos meses, caso a oferta europeia seja efetivamente reduzida. Por enquanto, o cenário ainda é de incerteza. Na Espanha, a expectativa para a próxima safra continuava positiva antes do agravamento das condições de calor. Para Scofano, a segunda metade de agosto e o início de setembro serão períodos cruciais para o desenvolvimento da fruta.

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