O 15º Congresso da Associação Nacional dos Distribuidores de Insumos Agrícolas e Veterinários (Andav), realizado em São Paulo, trouxe à tona os principais desafios enfrentados pelo setor de insumos agrícolas. Crédito restrito, os efeitos do El Niño e o cenário geopolítico internacional estão entre as maiores preocupações das empresas participantes.
Segundo Alberto Yoshida, diretor conselheiro da Andav e líder do GT de pesquisa, após os investimentos robustos realizados entre 2020 e 2022, quando as commodities estavam em patamares elevados, “a conta chegou”. Os preços dos grãos perderam força, os juros subiram e o financiamento tornou-se mais escasso, impactando diretamente os distribuidores de insumos.
“Se os produtores rurais passam por uma dificuldade muito grande, a distribuição está muito próxima. Esse aperto que nós temos é uma consequência inclusive do próprio mercado”, observou Yoshida. O aumento dos custos operacionais, especialmente combustível e energia elétrica, também agrava o cenário.
A recomendação principal é focar na gestão empresarial: controle de despesas, análise de balanço, fluxo de caixa e profissionalização da análise de crédito. A “esteira de crédito” tornou-se ferramenta fundamental, segundo Yoshida. Na Fortgreen, a resposta foi reforçar a gestão de risco e ampliar instrumentos de financiamento. Henrique Ramires, head de crédito, explica que a equipe passou a atuar mais próxima da área comercial e dos clientes, considerando dados da lavoura, como região, cultura e imagens de satélite. A empresa também ampliou o uso de operações de barter e Cédulas de Produto Rural (CPRs) para mitigar riscos.
Na Basf, o gerente sênior de acesso ao mercado, Gustavo Bastos, observa que os produtores estão mais criteriosos e fracionando as compras, deixando decisões para mais perto da aplicação. “O mercado vai acontecer, mas de uma forma um pouco mais fracionada”, afirma. O clima também gera cautela: a intensidade do El Niño pode afetar regiões de forma diferente, com possível atraso no plantio no Cerrado e maior pressão de fungos no Sul. A estratégia da Basf é manter proximidade com os agricultores para ajustar o manejo.
O cenário geopolítico eleva a preocupação com a disponibilidade de matérias-primas. Thiago Haydn, gerente comercial da Schem Group, destaca os impactos no Estreito de Hormuz sobre o mercado de enxofre, essencial para a produção de ácido sulfúrico e fertilizantes. “Pior que pagar caro é você não ter produto quando o produtor precisar”, ressalta.
Com preços de grãos em baixa, juros altos e crédito escasso, o setor de insumos agrícolas enfrenta um período de ajustes e cautela, exigindo estratégias inovadoras de gestão e financiamento.
Por Danton Boatini Júnior