Produtores de milho defenderam a criação de um programa de longo prazo para a construção de silos e armazéns e para investimentos em irrigação, descolado das linhas de crédito do Plano Safra, como forma de reduzir o déficit de armazenagem no país e dar mais previsibilidade à produção no campo.
Paulo Bertolini, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho), afirmou que o Plano Safra 2026/27, anunciado em junho, não viabiliza a construção de novas estruturas a tempo da safra. Ele sugeriu a implementação de um plano plurianual para acesso aos recursos destinados à armazenagem.
“Se há financiamento disponível e hoje sobram recursos, por que isso está acontecendo? Como a irrigação e a armazenagem estão relacionadas à inflação de alimentos e à segurança alimentar, temos que pensar esses dois setores fora do Plano Safra, criar algo plurianual, de longo prazo”, afirmou durante fórum realizado pela entidade em Brasília nesta quarta-feira (12/8).
Segundo Bertolini, como a contratação das linhas tradicionais do Plano Safra começa em julho e agosto, não há tempo hábil para finalizar as obras até a colheita. Esse “descasamento” desestimula a busca por esses investimentos, disse o executivo, que também coordena a Câmara Setorial de Equipamentos para Armazenagem de Grãos (CSEAG) da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).
“Se o agricultor tomar esse crédito, ele não consegue executar a obra até a safra e fica pagando juros sobre isso. Isso desestimula o agricultor a tomar esse crédito nesse momento e ficamos descasados”, afirmou.
O déficit de armazenagem no Brasil supera 130 milhões de toneladas de grãos. Segundo Bertolini, isso se deve ao aumento mais acelerado da produção, em torno de 17 milhões de toneladas anuais nos últimos 10 anos, enquanto a capacidade dos armazéns evolui em um ritmo menor, de 5 a 6 milhões de toneladas por ano.
“O cenário está mostrando um caos logo ali na frente, se forem mantidos os ritmos de produção de grãos e de construção de armazéns”, disse o executivo. Ele acrescentou que há ociosidade nas indústrias brasileiras de estruturas de armazenagem, apesar de exportar para 40 países.
O avanço da industrialização de grãos, com a construção de novas usinas de etanol de milho pelo país, pode puxar a demanda por mais armazéns. Como a maior parte da soja ainda é exportada, os armazéns são as “carrocerias dos caminhões, os vagões dos trens e os navios”, comparou.
“À medida que o Brasil se industrializa — e é isso que queremos para ter mais produtores de maior valor agregado —, mais grãos vamos precisar ter armazenados. Esse é o grande descasamento”, completou.
O diretor-executivo da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Fabrício Rosa, disse que o aumento da capacidade de estocagem de grãos pode reduzir custos e perdas. Cálculos da entidade mostram que há 10% de perdas de soja e milho por falta de armazenagem suficiente a nível de propriedade.
No Brasil, cerca de 15% das estruturas, como silos e armazéns, estão nas fazendas. “Estamos falando em 28 milhões de toneladas de grãos que perdemos em função da armazenagem insuficiente. São R$ 42 bilhões. É um dinheiro que escorre pelo ralo e não fica no bolso do produtor”, relatou no evento.
Para Rosa, é necessário encontrar equilíbrio em uma proposta de longo prazo para financiar investimentos em armazenagem. Os entraves, segundo ele, são os juros altos na economia e as exigências de garantias nas operações de crédito.
“Precisamos urgentemente de um fundo garantidor que possa liberar recursos para o produtor, não só custeio, mas para maquinário e armazenagem. O banco não empresta mais dinheiro porque o produtor não tem mais capacidade de garantia, atingiu um nível de alavancagem que consumiu as garantias”, completou.
Resposta do governo
O secretário-adjunto de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Wilson Vaz de Araújo, ressaltou que o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) para estruturas de até 12 mil toneladas é o mais barato do Plano Safra 2026/27 para médios e grandes produtores, com taxa de 8% ao ano. A linha tem R$ 2,5 bilhões em crédito, com limite de R$ 50 milhões por produtor, dez anos para pagar, incluídos dois de carência.
O montante, no entanto, é menor que o da temporada passada, quando foram ofertados R$ 3,7 bilhões, com juros de 8,5% ao ano. O Plano Safra 2026/27 também tem outros R$ 3,4 bilhões para financiar a construção de estruturas maiores, com taxa de 9,5% ao ano, ante os R$ 4,5 bilhões ofertados no ciclo anterior, com juros de 10% ao ano.
O secretário disse que, desde a criação do PCA, já foram alocados mais de R$ 60 bilhões em crédito para os produtores, mas que os recursos nunca foram acessados na totalidade. “Já alocamos mais de R$ 60 bilhões nesses programas, recurso capaz de financiar a armazenagem de 50 milhões de toneladas. Em nenhum ano foi acessada a totalidade do recurso e sofremos pressão para reduzir ou migrar para outro programa”, relatou.
“Elevamos de 6 mil para 12 mil toneladas [o tamanho da estrutura financiada] e mesmo assim não acontece”, lamentou.