Embora seja um dos cereais mais importantes para a segurança alimentar do país, o trigo ainda enfrenta desafios para ampliar sua produção no Brasil. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a área cultivada deve recuar 20,4% na safra 2026/27, com retração de 26,2% na produção, que deve totalizar 5,8 milhões de toneladas.
Nesse cenário, um estudo publicado na revista científica ACS Agricultural Science & Technology mostrou que nanopartículas biodegradáveis de lignina, utilizadas para transportar o hormônio vegetal ácido indolacético (IAA), podem melhorar características relacionadas à produtividade do trigo quando aplicadas diretamente nas folhas.
A pesquisa foi conduzida por Rodrigo Faleiro e Juliana Lischka Sampaio Mayer, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com Anderson do Espírito Santo Pereira e Leonardo Fernandes Fraceto, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Fraceto também é coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Nanotecnologia para Agricultura Sustentável (INCT NanoAgro).
O grupo comparou duas estratégias de aplicação da tecnologia: o tratamento de sementes e a pulverização foliar em plantas de trigo acompanhadas ao longo do ciclo produtivo. Os resultados mostraram que o tratamento das sementes reduziu o desempenho vegetativo e reprodutivo da cultura. Já a pulverização diretamente nas folhas apresentou comportamento distinto. O tratamento aumentou o número de grãos por espiga sem provocar sinais de fitotoxicidade, indicando potencial para melhorar componentes de produtividade com doses reduzidas do hormônio vegetal.
Os pesquisadores ressaltam que o trabalho ajuda a preencher uma lacuna da literatura científica. Até então, grande parte dos estudos avaliava apenas uma forma de aplicação das nanoformulações, dificultando a compreensão de como diferentes estratégias de entrega influenciam a absorção e os efeitos fisiológicos nas plantas.
Na avaliação da equipe, os resultados reforçam o potencial da nanotecnologia baseada em biopolímeros para o desenvolvimento de insumos agrícolas mais eficientes e sustentáveis, desde que a estratégia de aplicação seja considerada parte integrante da tecnologia. A expectativa é que futuras pesquisas ampliem a avaliação para outras culturas e sistemas produtivos, contribuindo para o desenvolvimento de soluções capazes de aumentar a eficiência dos reguladores vegetais, reduzir desperdícios e melhorar o desempenho das lavouras de forma sustentável.