O El Niño já começa a afetar os principais polos de produção de açúcar do mundo, levando fundos especulativos a reverem suas apostas na bolsa e fazendo o preço da commodity disparar para o maior nível em 16 meses em Nova York, segundo acompanhamento do Valor Data.
Os contratos mais negociados do açúcar demerara, com vencimento em outubro, fecharam a 17,47 centavos de dólar a libra-peso, o maior valor desde abril de 2025. Em uma sessão, a alta foi de 60 pontos, e no acumulado do mês, a valorização atingiu 281 pontos. Até 31 de julho, os preços ainda estavam abaixo de 15 centavos de dólar a libra-peso.
O movimento concretiza o que analistas vinham aguardando: que os preços começassem a refletir os fundamentos de oferta mais apertada. Nos últimos meses, as consultorias já previam uma demanda maior do que a oferta por causa dos impactos do El Niño, mas essas previsões ainda não haviam mudado o sentimento do mercado.
As notícias mais recentes giram em torno da Índia. O governo indiano avalia medidas para importar açúcar sem tarifa, o que representaria uma inversão do papel do país, que nos últimos anos foi um exportador relevante. Após o El Niño ser confirmado em junho, as chuvas diminuíram em julho, afetando a produção. Na Tailândia, segundo maior exportador de açúcar, o receio é que o fenômeno interrompa as chuvas no momento de desenvolvimento da cana.
No Centro-Sul do Brasil, o El Niño deve começar a ter efeito a partir de agora, ao ganhar força. A colheita já está atrasada em 28 dias, e o menor teor de sacarose dificulta a produção de açúcar. No entanto, dados históricos mostram que o El Niño favorece os canaviais do Centro-Sul, com produtividade acima da média em 90% dos anos de El Niño forte.
Em duas semanas, os fundos realizaram compras líquidas de 145 mil contratos futuros, o maior volume em um intervalo de duas semanas nos últimos 20 anos. O índice de volatilidade no mercado futuro subiu de 25% para 29%, o que pode fomentar mais busca por proteção e levar o açúcar à casa dos 20 centavos de dólar.