O fortalecimento do fenômeno climático El Niño pode elevar a inflação de alimentos no Brasil, segundo estudo do banco holandês Rabobank, especializado no agronegócio. Os economistas Maurício Une e Renan Alves analisaram a relação entre choques climáticos e os preços da alimentação no domicílio, com base em dados históricos do IPCA (IBGE) e dos registros de El Niño ‘moderado’ e ‘forte’ da NOAA (EUA).
“Observa-se aceleração dos preços após o fortalecimento do fenômeno. A magnitude e a persistência variam conforme intensidade, condições de safra e ambiente macroeconômico”, destaca o estudo.
Utilizando um modelo matemático, os pesquisadores concluíram que um El Niño moderado adicionaria 0,36 ponto percentual ao IPCA cheio em 12 meses. Considerando também itens semielaborados e industrializados, o acréscimo chegaria a 0,41 ponto percentual. Já em um cenário de El Niño forte, a alta dos preços dos produtos in natura teria um impacto extra de 0,53 ponto percentual no IPCA cheio em 12 meses. Com a inclusão de semielaborados e industrializados, o aumento adicional seria de 0,83 ponto percentual.
Os efeitos dos choques climáticos chegam mais rapidamente aos alimentos in natura, que são mais sensíveis às variações do clima. Nos semielaborados, o impacto é mais gradual, geralmente refletindo no encarecimento dos insumos. Nos industrializados, a influência é mais suave e menos relevante em comparação a outros custos, como processamento, embalagem, transporte e comercialização.
Importante destacar que os efeitos do El Niño sobre os preços não são imediatos — aparecem após cerca de seis meses. “Se um choque climático sobre a produção de alimentos ocorresse em setembro, o efeito sobre a inflação apareceria em março de 2027”, detalha Alves. A percepção dessa alta também varia conforme a região do país: localidades mais dependentes da oferta de produtos in natura sofrem pressão inflacionária mais intensa.
O estudo ressalta que, embora os choques climáticos tenham impacto econômico relevante, eles não são permanentes. À medida que as condições climáticas e de oferta se normalizam, a pressão inflacionária tende a diminuir, com efeitos residuais que podem persistir por um a dois anos após o El Niño moderado ou forte.
“Quase um ano depois, ainda pode ter um resquício que empurre a inflação para cima, mas depois esse efeito vai se dissipando”, afirma Alves. Apesar de transitórios, os choques climáticos elevam os preços dos alimentos ao causar problemas de oferta, reduzindo a capacidade da política monetária de conter a inflação no curto prazo. Na avaliação do Rabobank, o Banco Central precisa avaliar a duração desses choques e se eles se espalham para outros setores, como a alimentação fora do domicílio, que é um serviço e pode sofrer pressão secundária.