O pequeno Gustavo Vitor, de 7 anos, começa a se preparar para o almoço antes das 10 horas da manhã. A refeição improvisada, com carne moída e ovos, é uma tentativa da mãe, Rosimara de Carvalho Guimarães, de adaptar a rotina do filho ao transporte escolar que o leva para uma escola a mais de 50 quilômetros de distância. Desde que a escola da comunidade de Valo Novo, em São João del Rei (MG), foi fechada em 2019, a família enfrenta o desafio de conciliar o trabalho na produção de leite com os estudos do menino.
O caso de Gustavo é um reflexo de um problema estrutural na educação rural brasileira. De acordo com o Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o Brasil fechou 110.758 turmas de alunos no campo entre 2000 e 2024, a maioria na educação básica, que atende crianças de 4 a 12 anos. A diretora-presidente da ONG Roda Educativa, Tereza Perez, explica que o número de turmas fechadas revela a vulnerabilidade dessas salas de aula, muitas vezes vinculadas a escolas urbanas, o que dificulta o repasse de recursos.
Em Valo Novo, a Escola Municipal Mato Grosso atendia até o 5º ano e tinha registro próprio. Apesar dos esforços da comunidade para evitar o fechamento, nunca houve uma explicação oficial. A professora Aline Angelo, da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ), lamenta a falta de transparência. “Não sabemos onde está o registro dessa justificativa”, afirma.
Para Mônica Castagna Molina, professora associada da Universidade de Brasília (UnB) e especialista no tema, o fechamento de escolas rurais tem consequências graves. “A mais grave é a perda do direito à educação dos sujeitos do campo ou sua realização de forma extremamente precária”, diz. Sem opção, as crianças de Valo Novo precisam viajar de quatro a cinco horas por dia em estradas de terra, o que gera cansaço, faltas e até problemas de saúde, como alergias e infecções urinárias. “Criança cansada não aprende. Temos alunos no 5º ano que ainda não são alfabetizados”, relata Isaac Ribeiro, presidente da Associação de Agricultura Familiar da comunidade.
Ex-aluno da escola fechada, Isaac luta pela reabertura. “Perdemos a identidade e o ponto de referência que é a escola. É lá que criamos raízes”, comenta. A distância também limita a participação dos pais na vida escolar. Rosimara tenta acompanhar o filho, mas nem sempre consegue ir às festas e reuniões. “Às vezes tenho que faltar”, lamenta.
O fechamento de escolas ameaça até a participação política. Durante as eleições de 2024, a falta da unidade de Valo Novo quase impediu os moradores de votar, evidenciando o papel central da escola na comunidade.