Demanda por irrigação dispara com El Niño, mas crédito restrito freia investimentos no campo

Produtores rurais estão acelerando a busca por projetos de irrigação em 2026, impulsionados pelos riscos climáticos do El Niño, que tende a provocar seca do centro ao Norte do Brasil. No entanto, o fechamento de negócios enfrenta barreiras como a restrição de crédito e margens apertadas no agronegócio.

Luiz Paulo Heimpel, presidente da Câmara Setorial de Equipamentos de Irrigação (CSEI) da Abimaq, vê 2026 com otimismo devido à demanda ligada aos riscos climáticos, mas ressalta que é cedo para projetar o crescimento das vendas. O setor movimenta entre R$ 7 bilhões e R$ 8 bilhões por ano no Brasil. Em 2025, o mercado cresceu cerca de 2%, mesmo em um cenário pressionado.

Empresas do setor adotam cautela. Cristiano Trevizam, diretor comercial e de marketing da Lindsay para a América Latina, afirma que a demanda por irrigação está altíssima, com a empresa registrando recorde de projetos e cotações. “Nunca fizemos tantos projetos, tantas cotações na nossa história. Mas se vão virar negócios, depende”, diz. Ele aponta que o aumento dos extremos climáticos, com El Niño e La Niña mais intensos, impulsiona a procura.

No entanto, mesmo produtores sem débitos ou risco de recuperação judicial enfrentam dificuldades para obter crédito bancário. Os bancos projetam fluxo de caixa e alavancagem com base no preço das commodities e custos com insumos, restringindo a liberação de recursos. “Isso fez com que diminuísse o crédito”, afirma Trevizam.

O Proirriga, linha de financiamento do Plano Safra para irrigação, teve queda de 38% no volume de recursos para a safra 2026/27, com oferta de R$ 1,7 bilhão. A taxa de juros caiu 1 ponto percentual, para 11,5% ao ano. Trevizam observa que a contratação diminuiu porque o agricultor está com restrição de crédito. Atualmente, a maioria das vendas é feita com recursos próprios dos produtores, fundos de investimento ou da própria Lindsay. Outra opção é o barter (pagamento com commodity). Mesmo assim, o mercado de irrigação deve crescer pouco ou zero em 2026.

Luiz Alberto Roque, CEO da Bauer Latam e Irricontrol, também é cauteloso e prevê queda nas vendas em 2026, com recuperação apenas em 2027. “O efeito do El Niño acelerou o pipeline, mas já estamos no final da janela para a safra 2026/27. O que for fechado agora será para irrigar a safrinha de 2027”, explica. Ele acredita que 2027 será um bom ano devido à demanda represada. A Bauer espera que metade das vendas utilize financiamento próprio ou de parceiros.

Diante das dificuldades, a Netafim, especializada em irrigação por gotejamento, faz parcerias com agentes financeiros e fundos internacionais para garantir crédito com juros mais acessíveis e compartilhamento de risco, segundo Mateus Eugênio, diretor financeiro da Netafim Brasil. Ele também destaca que a demanda por irrigação pode vir tanto de áreas afetadas por secas quanto do Sul, onde o El Niño costuma trazer chuvas intensas que “varrem” nutrientes das plantas. “A irrigação localizada pode reabastecer de nutrientes o que o excesso de chuva levou”, diz.

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