Alta do trigo no mercado internacional pode pressionar preços de pães e massas no Brasil

O agravamento do conflito entre Rússia e Ucrânia elevou os preços do trigo na bolsa de Chicago ao maior patamar em três anos, e a alta já começa a pressionar os custos da indústria moageira no Brasil. A tendência é que esse aumento seja repassado, ao menos parcialmente, para o consumidor final, encarecendo pães, massas e biscoitos.

Preço do trigo em Chicago atinge maior valor em três anos

Em 28 de agosto, os contratos do trigo para entrega em dezembro avançaram 1,67%, fechando a US$ 7,6075 por bushel, o maior valor em mais de três anos, conforme dados do Valor Data. O movimento reflete os danos causados pela guerra a portos e terminais da Rússia e da Ucrânia, países que, juntos, respondem por aproximadamente um quarto da produção mundial do cereal.

De acordo com a consultoria SovEcon, mais de 95% da capacidade de exportação de grãos da Rússia pelos mares Negro e de Azov está paralisada. A interrupção do fluxo de oferta no Mar Negro reduz a disponibilidade global do produto e impulsiona as cotações internacionais.

Impacto no mercado brasileiro

O cenário externo ocorre em um momento delicado para a indústria nacional. A produção brasileira de trigo deve registrar o menor volume desde 2020, segundo estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Com a oferta doméstica menor e os preços internacionais em alta, a tendência é de aumento dos custos para produtores, indústrias e consumidores.

No primeiro semestre, o Brasil importou 170 mil toneladas de trigo da Rússia, de um total de 2,8 milhões de toneladas importadas, conforme a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo). Apesar do volume relativamente pequeno, a ausência do trigo russo pode concentrar ainda mais a demanda brasileira sobre a Argentina.

“O trigo russo entra pelo Norte e Nordeste, e não pelo Sul, por regra fitossanitária para proteger a região produtora brasileira. A Rússia atende, portanto, um recorte geográfico do país. Quando [esse fluxo] trava, como agora, o Brasil inteiro volta a disputar o mesmo trigo argentino”, explica Daniel Kümmel, presidente do conselho deliberativo da Abitrigo.

Kümmel também destaca que parte da alta já chegou ao consumidor, mas com defasagem, e que a indústria ainda acumula margens comprimidas. “O trigo acumula alta expressiva no ano e o preço da farinha não acompanhou na mesma intensidade. Some-se o enfraquecimento do mercado de farelo, coproduto essencial da moagem, e o resultado é margem comprimida”, afirma.

Preocupação com a qualidade do trigo argentino

A safra argentina, principal fornecedora do Brasil, também preocupa. Além do volume, a qualidade do cereal disponível para a indústria pode ser comprometida pelas condições climáticas. “A preocupação não está apenas no volume produzido, mas também na qualidade do trigo que estará disponível para a indústria. As condições climáticas têm impacto direto sobre as lavouras e podem comprometer características importantes do cereal”, alerta Max Piermartiri, presidente do Sindustrigo.

Com a combinação de oferta global mais restrita, produção nacional reduzida e problemas de qualidade na Argentina, o mercado de trigo deve seguir volátil nos próximos meses. A indústria moageira, por sua vez, tenta repassar os custos à cadeia de alimentos, o que pode chegar ao bolso do consumidor.

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