Na comunidade indígena Xerente, localizada em Tocantínia (TO), informações técnicas e conhecimentos tradicionais se complementam. Em dia de queima prescrita, anciãos da comunidade dão as boas-vindas a indígenas brigadistas, treinados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) por meio do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo).
A técnica de queima prescrita é uma das ferramentas do manejo integrado do fogo (MIF), que consiste na aplicação intencional e controlada da queima em áreas naturais para remover o excesso de vegetação seca (biomassa). Essa biomassa, quando acumulada, pode servir de combustível para incêndios florestais severos. A prática ajuda a proteger a biodiversidade, a produção rural e auxilia na regeneração de ecossistemas suscetíveis, como o Cerrado.
Em maio de 2026, após treinamento em Brasília, o brigadista indígena Adiel Xerente apresentou aos anciãos os planos para a queima prescrita. A atuação do fenômeno El Niño, que eleva temperaturas e afeta as chuvas no Centro-Oeste e Norte, exige estratégia adequada para amenizar o impacto de incêndios comuns entre agosto e setembro.
“Sempre ouvimos as lideranças das nossas comunidades, que são os anciãos, e fazemos uma consulta antes de decidirmos qualquer tipo de queima”, explica Adiel. O planejamento inclui datas e horários de menor risco, como as tardes de maio, quando é possível fazer um “fogo frio” — sem vento suficiente para espalhar as chamas descontroladamente.
A localização das queimadas também é estratégica: após o fogo se apagar, formam-se mosaicos que funcionam como barreiras contra incêndios futuros. “Além de evitar que as ocorrências tomem grandes proporções e atinjam o interior das aldeias, formadas por casas de palha, também tentamos que esses mosaicos protejam as veredas e matas ciliares, para evitar danos às nossas nascentes de rio”, detalha Adiel.
O território Xerente abriga cerca de 5.000 indígenas, distribuídos em mais de 100 aldeias em aproximadamente 180.000 hectares de Cerrado em Tocantins. Segundo o cacique Lázaro Calisto Xerente, de 52 anos, o fogo sempre fez parte da cultura. “Antigamente, nossos antepassados queimavam áreas em junho para se preparar para agosto e setembro, mas não existia o planejamento tecnológico de hoje, que ajuda a queimar evitando a degradação”, comenta.
Unem-se a formação dos brigadistas, o conhecimento tradicional e a tecnologia. Normalmente, a queima é feita com folhas grandes, espalhando as chamas pela biomassa em pontos definidos no projeto. Em regiões de difícil acesso, o Ibama utiliza o sling dragon, um dispositivo lançado de helicóptero que lança esferas em combustão. Existem apenas três desses dispositivos no Brasil, todos usados pelo Ibama, pioneiro na adoção dessa tecnologia na América Latina. Cada equipamento armazena 5.000 esferas com permanganato de potássio, cuja combustão ocorre entre 13 e 16 segundos após o lançamento.
Os brigadistas xerentes também contam com drones para monitoramento. A comunidade é beneficiada por equipamentos disponibilizados por meio de parceria entre Ibama e Fundação Bunge, firmada no ano passado. “Temos um termo de parceria com o Prevfogo-Ibama que vai durar cinco anos, inicialmente, para entrega de até 40 kits de drones e nove salas de situação móveis, com televisores e computadores, para que eles possam se apropriar da tecnologia”, informa Leandro Morilha, gerente de projetos socioambientais da Fundação Bunge. A entidade investe cerca de R$ 600 mil por ano em equipamentos nesse projeto de aceleração de tecnologia com as brigadas indígenas.