A inteligência artificial pode ampliar radicalmente a capacidade das empresas de analisar informações, formular alternativas e antecipar cenários, mas não deve ser confundida com a capacidade de decidir. Quanto mais a tecnologia avança, mais importante se torna o papel humano de definir objetivos, avaliar opções e assumir a responsabilidade pelas escolhas. Essa é uma das principais conclusões apresentadas por Silvio Meira, professor emérito do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), durante palestra realizada nesta quinta-feira (3) em São Paulo.
Na visão do especialista, que participou do evento “Arena Impacto, Shaping the Future”, realizado por Valor e Globo Rural, a IA deve funcionar como uma espécie de bússola: amplia o campo de visão, organiza informações e apresenta possibilidades, mas a direção continua sendo uma escolha humana. “A competência muito mais escassa deixou de ser ‘saber usar’, passou a ser ‘saber quando não confiar’”, afirmou. Ele citou estudo do Boston Consulting Group segundo o qual a tecnologia pode elevar produtividade e qualidade quando o problema está dentro da capacidade do modelo e do usuário. Fora dessa fronteira, porém, pode produzir respostas erradas com aparência de precisão.
Essa combinação entre inteligência artificial e julgamento humano também muda o conceito de vantagem competitiva. Os usos mais básicos da tecnologia — descrição, diagnóstico e previsão — tendem a se tornar commodities. A diferenciação começa quando a IA passa a recomendar ações e comparar alternativas, mas a vantagem mais difícil de copiar surge quando a empresa consegue integrar a tecnologia aos próprios dados, à governança e ao desenho organizacional para decidir, aprender e adaptar sua estratégia.
Meira chamou atenção para um problema que já aparece nas empresas: o receio de colocar informações proprietárias em ambientes de nuvem por questões de compliance e governança. Segundo ele, há companhias que acabam recorrendo a dados públicos ou de mercado para alimentar suas decisões. Isso, porém, não cria uma vantagem competitiva sustentável. O diferencial está justamente no conhecimento acumulado dentro da própria organização e na capacidade de transformar seus dados em inteligência. “Esquece temporariamente o compliance, sobe os dados do seu smartphone, pega os dados. (…) Todos os seus trabalhadores estão fazendo isso. Então subam vocês também.”
Para Meira, a empresa precisa construir capacidade interna para analisar seus dados, auditar decisões e aprender com os resultados. A IA pode acelerar esse processo, mas não substitui a definição do que importa, dos riscos aceitáveis e dos objetivos do negócio. “É recompor os fragmentos de uma decisão. Qualquer coisa que é contextualizada, defensável e assinada por alguém”, afirmou.
É nesse ponto que a adoção da IA deixa de ser apenas uma agenda de eficiência e passa a se relacionar com a própria perenidade das companhias. Segundo Meira, transformações que antes levavam décadas agora acontecem em janelas de dois ou três anos. Por isso, os investimentos em inteligência artificial precisam ser avaliados também pela capacidade que criam para a empresa decidir como quer competir no futuro. “Quanto melhor o resultado de hoje, mais é racional você chegar para o conselho e dizer que quer financiar a capacidade de definir o que vai acontecer nos próximos dez anos, ou seja, se você vai existir ou não”, afirmou.
A estratégia, nesse cenário, precisa operar em diferentes horizontes. Há um relógio rápido, para aquilo que pode ser automatizado imediatamente; um intermediário, para ciclos de meses; e um lento, para decisões que definem a competitividade por décadas, como território, genética e marca. “O pior erro é gerenciar tudo rápido. O segundo pior erro é gerenciar tudo devagar.”