Quando pensamos no futuro da agricultura, é comum imaginar sensores, drones, robôs, inteligência artificial e blockchain. Essa visão de agricultura 4.0 e 5.0 se tornou o imaginário padrão para tomadores de decisão, discursos empresariais e políticas públicas. No entanto, um novo estudo bibliométrico global revela que a direção da ciência pode ser bem diferente.
Pesquisadores analisaram 1.456 artigos científicos publicados entre 2023 e março de 2026 sobre economia circular aplicada à pesquisa, desenvolvimento e inovação (PD&I) agroalimentar. Os resultados, publicados no artigo “Circular Economy in Agrifood RD&I: A Global Bibliometric Review”, mostram que, embora a produção científica sobre o tema tenha triplicado em apenas três anos, a base da transformação continua sendo profundamente biofísica.
O núcleo da produção científica ainda está concentrado em temas como valorização da biomassa, aproveitamento de resíduos, gestão, avaliação do ciclo de vida, digestão anaeróbica e eficiência no uso de recursos. Tecnologias digitais como inteligência artificial e blockchain, embora presentes, ocupam posição secundária nas redes conceituais identificadas.
“Esse resultado não diminui a importância das tecnologias digitais, mas sugere que ainda estamos diante de uma inversão de prioridades”, destacam os autores. “Em muitos casos, imaginamos que a transformação circular do agro será conduzida principalmente por ferramentas digitais, quando, na realidade, a literatura científica indica que a base dessa transformação continua sendo redesenhar fluxos de matéria, reaproveitar biomassa, reduzir desperdícios e aumentar a eficiência dos sistemas produtivos.”
Para países com forte base agropecuária, como o Brasil, a mensagem é clara: a liderança na economia circular não dependerá apenas da incorporação de novas tecnologias digitais, mas sim da capacidade de transformar resíduos em ativos, biomassa em inovação, eficiência em competitividade e conhecimento científico em novas trajetórias de desenvolvimento.