Após um primeiro semestre marcado pelo aumento dos abates de gado bovino, o mercado já sinaliza redução na oferta de animais. Pecuaristas estão retendo mais fêmeas para reprodução, estimulados pelos preços do bezerro e de animais jovens, o que reduz o envio de matrizes para o abate. Essa dinâmica, combinada com a esperada demanda adicional dos Estados Unidos e o retorno das compras da China para preencher a cota de 2027, abre espaço para valorizações do boi gordo e da carne, segundo analistas.
As cotações dos contratos futuros do boi gordo na B3 já refletem esse cenário. Na sexta-feira (11), os contratos com vencimento em 30 de setembro fecharam a R$ 358,55 por arroba. Já o contrato para o fim de outubro encerrou a R$ 377,40, e o de janeiro de 2027, a R$ 385,30.
Retenção de fêmeas em curso
A participação das fêmeas no total de animais abatidos no país, considerando unidades com registro de inspeção federal (SIF), caiu de 44,7% em fevereiro para 32,1% em agosto. Em julho, enquanto o abate de bovinos caiu 22%, o de fêmeas recuou 32%, segundo a Safras & Mercado. “Já começou a retenção de matrizes, com uma leve reversão do ciclo produtivo”, afirma o professor Júlio Barcellos, coordenador do Nespro/UFRGS. Para ele, o movimento deve se intensificar até o fim do ano.
Alcides Torres, diretor geral da Scot Consultoria, avalia que a participação das fêmeas no abate total continuará caindo nos próximos meses e ao longo de 2027. Com isso, a produção de carne tende a diminuir, enquanto frigoríficos buscarão atender às demandas americana e chinesa.
Demanda externa aquecida
Há duas semanas, o governo dos EUA anunciou a importação de um volume adicional de 300 mil toneladas de carne bovina sem tarifa por 90 dias, com limite de 100 mil toneladas por mês. Os produtos deverão ser vendidos a preços 25% menores que os atuais. O Brasil poderia vender até 50 mil toneladas por mês, conforme estimativa de Roberto Perosa, presidente da Abiec.
Também há expectativa de que os frigoríficos voltem a produzir carne bovina para a China no último trimestre de 2026, com embarques para chegar em janeiro de 2027 e serem contabilizados na cota de 2027. A China estabeleceu para o Brasil uma cota de 1,106 milhão de toneladas sem tarifa adicional de 55%. A cota de 2026 foi praticamente preenchida no fim de julho.
“A tendência é que o boi suba e o preço da carne para o consumidor também”, disse Torres. “A alta deve ser contínua, não em picos, porque o Brasil tem um rebanho muito grande.”
Cotações estáveis, mas com viés de alta
Desde o início de setembro, as cotações do boi gordo se mantêm praticamente estáveis nas principais praças pecuárias. Na sexta-feira (11), a arroba em Araçatuba (SP) estava em R$ 345, mesmo valor do início do mês, acumulando alta de 10,6% no ano. O indicador Cepea/Esalq ficou estável em R$ 349,50 por arroba, com valorização de quase 1,5% no mês.
“O freio de mão para esse cenário positivo é o consumo. Se a arroba vai a R$ 400 ou R$ 450, o consumo cai”, alertou Torres. “Não pode subir muito, ou o consumidor vai para a carne de frango e outras alternativas.”
Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, destacou que a cota chinesa influencia a estratégia de confinadores, que devem priorizar o confinamento no quarto trimestre, quando a demanda chinesa retornar. “Temos uma perspectiva de elevação dos preços da carne bovina, consequência da menor oferta interna. Vai ter menos gado para abater”, afirmou.
A perda do mercado da União Europeia não deve impedir a alta, já que o bloco representa apenas 3% a 4% das exportações brasileiras de carne bovina. O veto europeu tem impacto, porém, por ser um mercado “vitrine” que pode influenciar outros compradores.