Uvas Piwi: a nova geração que corta em 90% o uso de fungicidas nos vinhedos

O cultivo de uvas para a produção de vinhos finos pode exigir até 30 aplicações de fungicidas por safra para combater as duas principais doenças fúngicas dos vinhedos: o míldio (que ocorre em períodos de alta umidade) e o oídio (típico do verão seco). No sul e sudeste de Minas Gerais, dois agricultores estão testando uvas que praticamente dispensam esses defensivos, reduzindo custos e gerando um vinho mais sustentável. O segredo está nas uvas piwis, abreviação do termo alemão pilzwiderstandsfähige, que significa resistência a doenças.

Diferentemente das uvas usadas nos vinhos de inverno, que dependem da técnica da dupla poda, as piwis são colhidas no verão e apresentam alta resistência natural. A pesquisadora Claudia Souza, da Epamig (Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais), explica que essas variedades são uma nova geração de híbridos europeus, obtidos por retrocruzamentos e seleção assistida por marcadores moleculares. Elas possuem mais de 85% de genes da espécie Vitis Vinifera, a mesma das uvas tradicionais de vinhos finos.

Desde 2021, a Epamig estuda mudas importadas da Itália em parceria com a Vinícola Stella Valentino, em Andradas (MG). Foram plantadas 50 mudas de oito variedades, entre tintas (Cabernet eidos, Cabernet Volos, Merlot Khantus e Merlot Khorus) e brancas (Sauvignon Kratos, Sauvignon Rytos, Fleurtai e Soreli). As primeiras colheitas ocorreram em dezembro de 2023 e 2024. No ano passado, houve também um teste de colheita no inverno.

“As piwis responderam muito bem no verão, com safras mais produtivas que as viníferas europeias puras e com bom índice de qualidade. Em 2024 e 2025, não aplicamos nada para o míldio e apenas três aplicações de fungicida para o oídio, em vez de 30. Vinificamos uma pequena quantidade para avaliar o vinho e o resultado sensorial foi bom”, afirma Claudia Souza.

O produtor José Stella, proprietário da vinícola, ficou tão satisfeito que ampliou o cultivo após o fim da parceria com a Epamig. Ele plantou 500 mudas de Merlot Khantus e Fleurtai para produzir vinho por três anos e avaliar a qualidade. “Acredito que o futuro da viticultura na nossa região são essas uvas híbridas. Além de muito produtivas, não dão trabalho e não precisam de muita mão de obra. Não fiz nenhuma aplicação de defensivo nas novas plantas”, conta.

Stella reconhece que os vinhos de inverno ainda têm qualidade superior, mas o custo é alto — as garrafas chegam a R$ 300. Seu objetivo é oferecer um vinho das piwis por R$ 100 a R$ 140, com qualidade comparável, mais sustentável e acessível. Atualmente, a vinícola produz cinco rótulos de vinhos de inverno em nove hectares, com produção anual de 20 mil garrafas, sendo 70% vendidas na propriedade e o restante em restaurantes da região.

Outro produtor, o médico Helvécio Teles Teixeira, de Bom Jesus do Amparo (MG), também aposta nas piwis. Ele produz cerca de 1.600 garrafas anuais de vinhos de inverno desde 2016 e iniciou testes em 2019. Após uma experiência não tão boa com a variedade Sorelle, importou 60 mudas de Sauvignon Kratos e Cabernet Volos em 2023. “Agora o plantio está dando certo. A necessidade de defensivos é bem menor e só usei orgânicos. Há dois anos, com muita umidade, perdi quase toda a safra, mas as piwis produziram. Meu plano é fazer a primeira colheita no verão e enviar as uvas para vinificação na Epamig”, diz.

Para Claudia Souza, o potencial das piwis é grande no Novo Mundo, especialmente no Brasil. “Na Alemanha já há concursos para essas uvas, mas em países com controle de origem o cultivo só agora está sendo permitido. Aqui, é um produto de nicho para consumidores que buscam vinhos com pegada agroecológica”, explica. Ela ressalta que, para o cultivo avançar, é preciso que mais produtores invistam nas variedades e que enólogos estejam abertos a trabalhar com os novos vinhos. “É um grande desafio, mas como as uvas mantêm nomes semelhantes aos das variedades europeias, a resistência pode ser menor.”

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