Biorrefino: a nova fronteira para o agro brasileiro na bioeconomia

Durante décadas, o milho foi visto como uma simples commodity. No entanto, uma transformação silenciosa avança pelo interior do Brasil. Em modernas biorrefinarias, o grão já não produz apenas alimento ou ração, mas também etanol, proteína concentrada para alimentação animal (DDGS), óleo, energia, dióxido de carbono industrial e diversos outros produtos que multiplicam o valor econômico de cada hectare cultivado.

Esse movimento com o milho é apenas o início de uma mudança muito mais ampla. Quando uma mesma biomassa passa a gerar, de forma integrada, alimentos, energia, materiais e insumos industriais, ela deixa de ser apenas matéria-prima agrícola para se tornar uma plataforma industrial. Essa é a essência do biorrefino: uma nova forma de integrar agricultura, indústria e inovação para extrair mais valor de cada hectare.

A cana-de-açúcar já trilha esse caminho, produzindo açúcar, etanol, bioeletricidade, biogás, biometano, combustíveis sustentáveis e insumos para a indústria química. O mesmo pode ocorrer com a madeira, a macaúba, as oleaginosas, os resíduos da pecuária e até os resíduos urbanos, convertidos em combustíveis, biomateriais, fertilizantes, químicos renováveis e outras soluções para uma economia de baixo carbono.

Essa lógica transforma profundamente o papel do campo. A agricultura deixa de produzir apenas alimentos, fibras e energia para fornecer também moléculas, materiais avançados, carbono renovável e serviços ambientais. O agricultor deixa de vender apenas produtos agrícolas e passa a participar de cadeias produtivas de maior intensidade tecnológica e maior valor agregado.

As regiões agrícolas também são impactadas, podendo evoluir para polos de bioindústria, atraindo investimentos, inovação e empregos qualificados. A competitividade deixa de depender apenas da produtividade por hectare e passa a refletir a capacidade de agregar conhecimento, tecnologia e valor a cada tonelada de biomassa produzida.

Poucos países estão tão bem posicionados quanto o Brasil para liderar essa transição. Agricultura tropical altamente produtiva, diversidade de biomassas, matriz energética limpa, capacidade científica e experiência em bioenergia formam uma combinação rara. No entanto, transformar esse potencial em liderança exigirá visão estratégica, investimentos e maior integração entre agricultura, indústria, ciência, energia e políticas públicas.

Talvez estejamos assistindo ao nascimento do agro 5.0. Depois da mecanização, da revolução da produtividade e da agricultura digital, desponta uma nova etapa: uma agricultura que não produz apenas alimentos, fibras e energia, mas também moléculas, biomateriais, carbono renovável e serviços ambientais. O biorrefino é a infraestrutura que torna essa transformação possível. Mais do que reinventar a indústria, ele pode reinventar o papel da agricultura brasileira, convertendo o campo na principal plataforma da bioeconomia do século XXI.

*Maurício Antônio Lopes é engenheiro agrônomo e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seu autor e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural.

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