Um grupo de produtores rurais, organizado na Frente Empresarial para Regeneração da Agricultura (Fera), lançou uma campanha acompanhada de uma carta-manifesto para defender medidas que acelerem a transição sustentável no setor agropecuário. A iniciativa reúne agricultores que já adotam práticas regenerativas e busca chamar a atenção para a necessidade de maior acesso ao crédito para aqueles dispostos a assumir compromissos com a sustentabilidade.
O manifesto, intitulado “A nova safra do agro é regenerativa”, defende também capacitação técnica para geração de mão de obra, maior acesso a mercados e a criação de normas de incentivo. De acordo com o documento, “é preciso investir em políticas públicas com acesso a crédito facilitado, que reconheça o tempo da transição, assistência técnica que chegue a quem está longe dos grandes centros e acesso a mercados dispostos a valorizar quem já entrega esse resultado”.
Produtores que já colhem os frutos da regeneração
Giuliano Beggio, produtor de cana-de-açúcar e cereais em Matão (SP), é um dos membros da Fera. Ele conta que promoveu mudanças significativas no negócio da família após ingressar no grupo. “Assumi como missão mostrar que é plenamente possível unir produtividade excepcional na cana-de-açúcar e nos grãos com práticas regenerativas que restauram solo, água e biodiversidade”, diz.
Beggio adota em sua propriedade técnicas que aumentam a matéria orgânica do solo, reduzem a dependência de insumos externos e ampliam a biodiversidade. Para ele, o objetivo vai além de reduzir impactos ambientais: “Na agricultura regenerativa, a proposta é recuperar a capacidade produtiva do próprio agroecossistema, fazendo do solo um dos principais ativos da fazenda”.
Exemplo no Paraná
Outra integrante da Fera é a produtora Flávia Garcia Cid, da Fazenda Jaracatiá, em Querência do Norte (PR). A propriedade cultiva ervas aromáticas e medicinais em cerca de 1 mil hectares, mantém 314 hectares de área preservada, utiliza energia fotovoltaica e faz aproveitamento total da produção vegetal. Parte dos resíduos é destinada à alimentação do gado e parte segue para um biodigestor.
“Acredito no potencial da união de nossas vozes em prol de um objetivo que é universal, tratando-se da conservação do planeta e manutenção da segurança alimentar. Um diálogo mais significativo pode trazer incentivos capazes de aumentar os produtores regenerativos”, afirma a produtora.
O manifesto completo
Na carta, os signatários argumentam que o Brasil já possui a resposta para o desafio global de produzir em larga escala sem esgotar os recursos naturais. Destacam que o modelo regenerativo “tem ganhado cada vez mais hectares pelo país” e que o impulso para essa transformação é o mesmo que, décadas atrás, fez do Brasil uma potência agrícola: a capacidade de testar, ajustar e evoluir.
O documento ressalta que “solo cuidado retém mais água e resiste melhor aos anos de seca”, que pastagens bem manejadas sustentam mais gado com mais saúde animal, e que terras exauridas voltam a produzir mais do que antes. Para que as práticas regenerativas deixem de ser exceção e se tornem o padrão, o manifesto defende investimentos em políticas públicas, crédito facilitado e assistência técnica.