Os sistemas agroflorestais (SAFs) deixaram de ser iniciativas de pequena escala e ganham força como negócios de grande porte, atraindo bilhões de reais em investimentos privados. Empresas como Patria, Natura e Courageous Land lideram projetos que combinam retorno financeiro de longo prazo com metas ambientais, especialmente de restauração florestal.
Segundo Valmir Ortega, diretor-presidente da Belterra, empresa pioneira no setor, os SAFs estão saindo de um modelo customizado e restrito a pequenos agricultores para um processo de sistematização em larga escala. “Claramente houve uma mudança”, afirmou. A Belterra foi a primeira a obter crédito do BNDES para esse tipo de empreendimento, captando R$ 100 milhões via Fundo Clima para implantar 2,5 mil hectares no Pará, Mato Grosso e Bahia.
Para Leonardo Sobral, diretor do Imaflora, o principal motor é a meta brasileira de recuperar 70 milhões de hectares de pastagens degradadas até 2050. “O mercado de carbono, sozinho, não fecha a conta”, explicou. Ele destacou que os SAFs combinam espécies produtivas de curto prazo, que geram renda rapidamente, com o carbono, que só entra a partir do terceiro ano.
O Patria, uma das maiores gestoras do país, criou um fundo de US$ 500 milhões (mais de R$ 2,5 bilhões) para investir em SAFs até 2027. Já captou US$ 150 milhões, com um primeiro projeto focado em abacate hass em Avaré (SP). “Identificamos culturas perenes de alto valor, como café e cacau, que combinam bem em arranjos agroflorestais”, disse Pedro Faria, sócio-diretor. O fundo projeta retorno de 12% a 14% ao ano em até 15 anos.
O Fundo Vale investiu cerca de R$ 292 milhões em negócios agroflorestais entre 2020 e 2025. Juliana Vilhena, gerente de estratégia, afirmou que “a terra vale mais recuperada do que desmatada”. Já a Courageous Land obteve R$ 116 milhões do BNDES para plantar dois mil hectares na Amazônia com café, açaí, cacau e espécies madeireiras.
A Natura também apostou nos SAFs. A empresa anunciou que atingiu mil hectares de dendê agroflorestal no Pará, com rendimento 50% maior. “Tínhamos um incômodo com o histórico da palma”, lembrou Angela Pinhati, diretora de Sustentabilidade. A meta é alcançar dois mil hectares até 2030 e ter 100% do óleo de palma de SAFs até 2040.
Gilberto Terra, cofundador da Courageous Land, destacou que o dinheiro não é escasso, mas sim as habilidades para estruturar projetos. “Hoje não falta dinheiro no mercado”, concluiu.