A suspensão das importações de carne bovina brasileira pela União Europeia, anunciada em setembro devido a exigências relacionadas ao controle de antimicrobianos na cadeia produtiva, pode custar ao Brasil mais de US$ 100 milhões em receitas perdidas com as exportações dentro da Cota Hilton. Esse programa de cotas, que envolve cortes nobres com preços até 40% superiores aos convencionais, é fundamental para a pecuária nacional.
De acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), a cota de 8,9 mil toneladas para a União Europeia, com preço médio de US$ 11 mil por tonelada, representa um potencial de faturamento de US$ 97 milhões no ciclo 2027/28, em um cenário pessimista. No ciclo atual (2026/27), os exportadores já deixaram de vender mais de US$ 22 milhões, com mais de 2 mil toneladas não embarcadas devido ao bloqueio.
Uma fonte do setor informou que Argentina e Uruguai aproveitaram o veto ao Brasil para elevar os preços na Cota Hilton. Cortes como rump loin, que antes eram negociados a US$ 23 mil por tonelada, passaram a US$ 28 mil. Empresas brasileiras credenciadas — JBS, MBRF, Minerva, Barra Mansa e Frigorífico Silva — foram diretamente afetadas.
Além dos frigoríficos, pecuaristas que investiram em rastreabilidade e certificação para atender aos requisitos da cota também sofrerão perdas. A Astra Foods, do Paraná, que planejava abater mil cabeças por ano para a cota, adiou os investimentos. Segundo a diretora de Relações Internacionais da Abiec, Lhais Sparvoli, “o pecuarista é mais impactado do que a indústria, porque criou um boi para estar pronto em dois anos, fez um superinvestimento em rastreabilidade individual e certificação”.
A Cota Hilton foi criada em 1979 durante as negociações do GATT, em um hotel da rede Hilton. Ela estabelece uma cota fixa de 67,2 mil toneladas de carne bovina de alta qualidade para a UE, dividida entre países exportadores. O Brasil vende cortes como filé mignon, contrafilé, entrecôte e alcatra, de animais de 22 a 24 meses alimentados exclusivamente a pasto. Com o Acordo Mercosul-UE em vigor desde maio, a cota ficou totalmente isenta de tributação, o que tornava o mercado ainda mais atrativo.
Além do Brasil, Austrália, Canadá, Estados Unidos, Nova Zelândia, Paraguai e Uruguai também exportam pela Cota Hilton. A expectativa é de que, sem reversão do embargo, os impactos se estendam por todo o setor.