Reflorestamento ganha fôlego com crédito do BNDES, mas setor ainda esbarra em entraves

O reflorestamento no Brasil apresenta sinais claros de expansão, impulsionado por linhas de crédito robustas e crescente demanda por mudas nativas. No entanto, a cadeia produtiva ainda enfrenta obstáculos estruturais que limitam seu pleno desenvolvimento, como falta de coordenação entre os elos, dificuldades de acesso a financiamento e baixo conhecimento técnico sobre as opções disponíveis.

Em pouco mais de dois anos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mobilizou R$ 14,6 bilhões para a restauração florestal, entre financiamentos diretos e aportes em fundos de investimento. Desse total, R$ 8,9 bilhões foram destinados a operações de crédito via Fundo Clima, Fundo Amazônia e recursos próprios, com potencial para recuperar 212 mil hectares e capturar 68 milhões de toneladas de carbono da atmosfera. Os outros R$ 5,9 bilhões estão sendo aplicados em parceria com fundos privados, incluindo R$ 1,3 bilhão em capital catalítico do banco.

Para Tereza Campello, diretora socioambiental do BNDES, o setor é visto como uma nova fronteira econômica. “O banco encara como um novo setor econômico. Será um setor de ponta no Brasil, em que o país tem vantagens disparadas”, afirmou. Além de atender à meta nacional de restaurar 12 milhões de hectares até 2030, a atividade pode se tornar fornecedora global de créditos de carbono, madeira certificada e, futuramente, créditos de biodiversidade.

Viveiros: demanda cresce, mas gargalos persistem

Os viveiros de mudas nativas já sentem o aquecimento do mercado. A Fazenda Anauá, em Caravelas (BA), dobrou sua capacidade produtiva no último ano. Rodrigo Ciriello, presidente da Nativas Brasil, associação que reúne 150 viveiristas, relata que em algumas regiões já falta muda. “Os grandes projetos deixam para comprar muda só quando começa a chover. Mas o viveiro tem que começar a produzir em janeiro”, observa.

Contudo, o segmento ainda opera com ociosidade média de 50%, e muitos viveiros não conseguem vender 30% do que produzem por descasamento com a demanda. A falta de acesso a crédito é outro problema. “A produção de mudas exige mobilização de capital grande no começo. O acesso ao recurso pelo Plano Safra ou linhas tradicionais é mais difícil para o viveirista. Ele tem medo de pegar crédito e depois não conseguir vender”, explica Ciriello.

Atualmente, os viveiros do país têm capacidade de entregar 300 milhões de mudas por ano. Para atender pelo menos 30% da necessidade da meta de reflorestamento prevista na NDC, seria necessário produzir 1,25 bilhão de mudas anualmente. “Estamos longe de conseguir bater a meta”, admite o presidente da Nativas Brasil.

Outro entrave é a complexidade do trabalho com espécies nativas. Diferentemente de plantios comerciais homogêneos, o restauro exige coleta de sementes na floresta, planejamento para variações climáticas e sazonalidade dos frutos. “Não é algo repetitivo e industrial”, resume Ciriello.

O caminho para consolidar o setor passa por maior articulação entre projetos, viveiros e financiadores, além de capacitação técnica e linhas de crédito específicas que reduzam os riscos para quem produz as mudas. Com investimentos adequados e coordenação eficiente, o Brasil pode transformar o reflorestamento em uma indústria tão relevante quanto a de papel e celulose.

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