A Administração-Geral de Alfândegas da China (GACC) confirmou nesta terça-feira (29/9) que o volume de carne bovina importado do Brasil sob as medidas de salvaguarda atingiu 100% da cota prevista para 2026, de 1,106 milhão de toneladas. Com isso, todas as novas remessas que ingressarem no mercado chinês neste ano serão sobretaxadas em 55%.
Na prática, desde julho os frigoríficos brasileiros já haviam reduzido drasticamente a produção e os embarques de cortes para a China, diante do avanço do preenchimento da cota. Como há um prazo de até 60 dias entre a saída das cargas do Brasil e a chegada aos portos chineses, os exportadores praticamente cessaram os embarques nos últimos meses para evitar a sobretaxa sobre volumes que eventualmente excedessem o limite.
O anúncio de preenchimento de 90% da cota havia sido feito em 10 de agosto. No mercado pecuário nacional, havia estranhamento quanto à demora para chegar aos 100%. O movimento ocorreu porque a China considera a data de desembaraço das cargas no país. Segundo cálculos da Safras & Mercado, o Brasil já havia ultrapassado a cota de 1,106 milhão de toneladas de carne bovina in natura de 2026 em meados de agosto. Nos oito primeiros meses do ano, entraram na China 1,144 milhão de toneladas de carne brasileira, o equivalente a 103,5% da cota, com 38,75 mil toneladas acima do limite.
Por conta desse movimento, a China caiu de primeiro para quinto lugar nos principais destinos da carne bovina brasileira em agosto. No mês passado, foram embarcadas para lá apenas 18,9 mil toneladas, queda de 88,2% na comparação com o mesmo mês de 2025. No acumulado do ano, saíram do Brasil 899,2 mil toneladas de carne bovina com destino à China, negócios que renderam US$ 5,5 bilhões aos frigoríficos exportadores, alta de 10,2% no faturamento e queda de 6% no volume embarcado, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).
Em entrevista recente, o presidente da Abiec, Roberto Perosa, afirmou que o atingimento da cota não significa necessariamente que todas as vendas vão parar. Segundo ele, pode haver operações residuais, a depender dos contratos e das condições comerciais. Nesses casos, o importador deverá assumir a diferença tarifária de 55%. Mesmo assim, Perosa reconheceu o impacto do esgotamento precoce da cota em 2026: “Tivemos um impacto gigantesco nas indústrias. Julho, agosto e setembro foram meses muito difíceis, principalmente por conta das margens e da impossibilidade de manter o fluxo normal de vendas para a China. Reduzimos em cerca de 90% os embarques para o mercado chinês”.
Segundo Perosa, sem a limitação da cota, o Brasil poderia exportar até 2 milhões de toneladas de carne bovina para a China neste ano, acima do recorde de 1,67 milhão de toneladas de 2025. “Temos produto e capacidade de processamento. O volume que não foi para a China precisou encontrar outros destinos”, disse.
Diante desse cenário, a indústria deverá retomar a articulação com o governo federal para que seja estabelecido um mecanismo de controle das cotas para a China. A ideia é que o Ministério da Agriculture faça a gestão dos volumes a serem embarcados. Para a Abiec, a medida é essencial para evitar que a cota se esgote ainda mais cedo em 2027. “Se nada for feito e mantivermos a média mensal que historicamente exportamos para a China, a cota pode acabar já em março ou, no mais tardar, abril. Isso seria muito ruim para todo o setor, porque poderíamos passar de três meses de dificuldade neste ano para cerca de seis meses no próximo”, salientou Perosa.