Refúgio das Águias: fé, coletivismo e produção orgânica como pilares da sustentabilidade em Bonito

No coração de Bonito (MS), a comunidade Refúgio das Águias mostra que é possível aliar fé, preservação ambiental e um modo de vida coletivo. Instalada em uma propriedade de 55 hectares às margens do Rio Mimoso, a vila reúne cerca de 40 famílias que compartilham não apenas moradias padronizadas, mas também refeições, trabalho e recursos financeiros. O modelo rendeu à propriedade o primeiro lugar no Prêmio Fazenda Sustentável da Globo Rural, na categoria Pequenas Propriedades.

A história do Refúgio começa em Ecoporanga, no Espírito Santo, onde o grupo já vivia sob a orientação do pastor Ireneu Lopes, fundador da igreja Tabernáculo Amor Divino. Há seis anos, motivados por um ‘chamado de Deus’, eles migraram para Mato Grosso do Sul. A primeira preocupação foi garantir o saneamento básico. Logo no acampamento inicial, foi instalada uma fossa de evapotranspiração — sistema que trata o esgoto sem contaminar o solo e ainda gera alimentos. O tanque impermeável, com dutos de pneus reutilizados, filtra a água por camadas de pedras e areia, enquanto bananeiras e outras plantas de folha larga absorvem a água e a devolvem à atmosfera.

Na comunidade, não há salários. Todo o dinheiro gerado pelo trabalho coletivo é depositado em um caixa único e administrado em conjunto. Cada morador tem uma função definida, e as casas são construídas no mesmo padrão, com tamanho ajustado ao perfil familiar. As refeições são servidas em um refeitório central, e cada família cuida de seu próprio conjunto de mesa e cadeiras.

A produção orgânica é outro pilar. A horta, que começou com 100 metros quadrados, hoje ocupa quase 4 hectares e fornece quase 30 variedades de alimentos, todos certificados como orgânicos desde 2023. O excedente é vendido a restaurantes e supermercados da região. O cultivo utiliza adubação verde, controle biológico e plantas de serviço como margaridas e capim-açu para proteção contra pragas e ventos. A água da pré-lavagem dos alimentos é reaproveitada na irrigação.

Apesar do sucesso atual, a comunidade enfrentou preconceitos. No Espírito Santo, foi investigada pelo Ministério Público do Trabalho sob suspeita de trabalho análogo à escravidão, mas o órgão concluiu que o regime se assemelhava a um cooperativismo. Para os integrantes, a sustentabilidade verdadeira precisa ser justa, e o respeito à natureza é uma extensão de sua fé cristã.

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