Os azeites brasileiros vêm acumulando prêmios em concursos internacionais, e em 2026 não foi diferente: foram 101 medalhas de ouro e 30 de prata no EVO IOOC, na Itália, além de nove marcas nacionais entre as 100 melhores do mundo no Flos Olei. Mas o que explica esse desempenho? Segundo a sommelière Patricia Galasini, CEO da Agência JKPG, a combinação de fatores começa no campo e passa por colheita antecipada, processamento rápido e escolha criteriosa das variedades.
Produção em pequena escala e controle de qualidade
Grande parte dos produtores brasileiros é de pequeno e médio porte, o que permite um acompanhamento próximo de toda a cadeia produtiva. Muitos possuem moinho próprio ou trabalham com unidades próximas às oliveiras, reduzindo o intervalo entre a colheita e a extração. “A colheita costuma ser feita cedo, buscando frescor e manutenção dos compostos do azeite”, explica Patricia.
Clima: o aliado do Sul
O clima do Rio Grande do Sul, com cerca de 400 horas abaixo de 10 °C no inverno, favorece o florescimento da oliveira. Durante a maturação, a amplitude térmica entre dia e noite desacelera o metabolismo da azeitona, concentrando polifenóis e compostos aromáticos. Um estudo da UFPel e Embrapa mostrou que a mesma variedade Koroneiki, cultivada em diferentes regiões gaúchas, produziu azeites com perfis fenólicos distintos. Já a chuva excessiva pode ser prejudicial, por isso anos mais secos e estáveis são ideais.
Variedade e ponto de colheita: decisões que definem o sucesso
A escolha da variedade é determinante. Koroneiki, por exemplo, oferece maior concentração de óleo e polifenóis, enquanto Arbequina produz azeites mais suaves. Coratina, Frantoio, Picual e Arbosana também são cultivadas no Sul. O momento da colheita altera completamente o perfil: colheitas precoces geram azeites com altíssimo teor de compostos fenólicos (caso da Coratina em Encruzilhada do Sul, com 1.370 mg/kg), mas menor rendimento. “Os azeites premiados quase sempre fazem a segunda escolha”, afirma Patricia.
Cuidados pós-colheita
A saúde das oliveiras, poda, nutrição e controle de doenças influenciam o resultado final. Na colheita, evita-se frutos machucados ou caídos no chão. As azeitonas devem chegar rapidamente ao moinho em caixas rasas e ventiladas, pois o fruto colhido começa a fermentar e oxidar. “A extração deve ser feita em poucas horas”, explica a especialista. Esse controle preserva baixa acidez, baixa oxidação e alta concentração de polifenóis. Na análise sensorial, os jurados buscam harmonia entre frutado, amargor e picância — não basta ser intenso, precisa ser complexo.
Resultados de 2026
No EVO IOOC (Itália), 786 azeites de 33 países foram avaliados; o Brasil levou 101 ouros e 30 pratas. A Estância das Oliveiras, de Viamão (RS), conquistou Best in Show, Best in Class e ouro no EIOOC (Genebra) com seu Frantoio. No Flos Olei 2026, nove rótulos brasileiros figuraram entre os 100 melhores do mundo, sendo sete gaúchos. No Olivinus (Mendoza), os 11 azeites inscritos pela Estância das Oliveiras receberam Gran Prestigio Oro. Esses números comprovam que a qualidade do azeite brasileiro é reconhecida globalmente.