Leis municipais em Minas Gerais miram prevenção do greening na citricultura

Produtores paulistas de laranja estão migrando para Minas Gerais para escapar do greening, a doença mais destrutiva da cultura. Em resposta, municípios mineiros estão aprovando leis que proíbem o plantio da murta, planta ornamental que serve de hospedeira para o psilídeo transmissor da doença.

Fuga do greening impulsiona expansão em Minas

O grupo Favero Rodrigues, tradicional no cultivo de citros em Monte Azul Paulista (SP), arrendou três áreas em Itabira (MG) para plantar 600 hectares de laranja. A medida foi tomada para fugir dos impactos do greening, que atingiu em média 48,08% das laranjeiras do cinturão citrícola em 2026, segundo o Fundecitrus. Na região central paulista, a incidência chega a 70,58% em Limeira.

Veronica Kastalski de Souza, engenheira agrônoma do Fundecitrus em Minas Gerais, explica que desde 2024 muitos produtores paulistas passaram a plantar laranja no Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e noroeste mineiro. A intenção é criar um cinturão antigreening nessas regiões.

Murta: o foco das leis municipais

O greening é transmitido pelo psilídeo (Diaphorina citri), um inseto de 2 a 3 mm que se alimenta da seiva doente de uma planta e a leva para outras. Ele também usa a murta (Murraya paniculata) como hospedeira secundária. Por isso, sindicatos rurais incentivaram cidades mineiras a aprovar leis que proíbem o plantio da murta e determinam sua substituição por espécies como o pingo de ouro.

“Para o greening, a murta é como se fosse a água parada da dengue. Nessa planta o psilídeo se hospeda, se alimenta e se reproduz”, afirma Veronica.

Primeira lei e expansão

Osmar Gonçalves dos Santos, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Araxá, conta que o município foi o primeiro a aprovar uma lei em 2024 proibindo a plantação, multiplicação e comércio da murta. Desde então, o projeto tem sido levado a outras cidades. “Ao primeiro sinal de interesse dos citricultores paulistas, os sindicatos rurais se mobilizaram para prevenir a doença”, diz ele.

Em 2025, a área plantada de citros em Minas somou 29.595 hectares, com destaque para Comendador Gomes (7.500 ha), Prata (7.253 ha) e Frutal (4.502 ha). A estimativa é dobrar nos próximos anos. Atualmente, quatro cidades já criaram a legislação e outras 11 têm projetos em tramitação na Câmara.

Medidas preventivas nos pomares

Daniel Aparecido Leal, produtor e gerente do grupo Favero Rodrigues em Itabira, relata que a empresa adotou várias medidas preventivas em colaboração com o Fundecitrus: instalação de armadilhas georreferenciadas, inspeção contínua das plantas, aplicação de inseticidas com rotação de grupos químicos e protocolo de arranquio de árvores doentes. Em três anos, não foi encontrada nenhuma planta com greening nos pomares em Minas.

Já em São Paulo, a produtividade varia de 800 a 1.200 caixas por hectare, mas em áreas muito atacadas a colheita não chega a 500 caixas por hectare. Diante disso, a empresa planeja mudar de cultura nas regiões onde a pressão da doença é maior.

Meta: primeira zona livre de greening do Brasil

Daniel Amorim, consultor que trabalhou no projeto de lei pioneiro em Araxá, afirma que a meta é fechar o cinturão até o primeiro semestre de 2027, estabelecendo a primeira zona livre de greening do Brasil. “Estamos trabalhando com os sindicatos rurais para criar liderança e governança, dando segurança aos investidores”, conclui.

As novas leis também exigem viveiros telados para evitar a entrada do psilídeo e proíbem a comercialização de mudas de murta e de citros não certificadas. Um levantamento recente mostrou que 50% das mudas de citros produzidas em São Paulo foram para fora do estado, sendo 49% para Minas Gerais.

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