O cooperativismo e a liderança feminina ganham cada vez mais espaço no agronegócio brasileiro, especialmente em um cenário de desafios como volatilidade econômica, mudanças climáticas e restrições ao crédito. O tema foi debatido durante o painel “O agro é cooperativista”, parte do evento O Agro é Delas, promovido pela revista Globo Rural, que reuniu lideranças femininas para discutir oportunidades e entraves do setor.
Fabiana Alves, CEO do Rabobank, abriu o painel destacando que as mulheres têm um papel fundamental nas novas agendas do agro e nas tomadas de decisão. Para ela, é essencial que invistam em capacitação, conhecimento sobre bancabilidade e medidas de sustentabilidade. “O crédito ainda existe, mas exige mais preparo”, afirmou, explicando que os bancos buscam operações mais preparadas para enfrentar os desafios e a volatilidade do mercado. A chamada “bancabilidade” envolve indicadores como patrimônio, endividamento, retorno sobre investimentos, gestão de riscos e planejamento financeiro.
A executiva também ressaltou que a adoção de práticas sustentáveis e de resiliência climática tornou-se um diferencial importante na análise de risco das instituições financeiras. “O crédito não desapareceu, mas ficou mais seletivo”, completou.
Protagonismo feminino como gerador de valor
Durante o debate, Fabiana Alves reforçou que o fortalecimento da presença feminina no agro não representa uma disputa por espaço, mas uma oportunidade de inclusão e geração de valor para o setor. O Rabobank apoia iniciativas voltadas à liderança feminina há pelo menos seis anos. Para ela, temas como governança familiar, sustentabilidade, sucessão e sofisticação financeira exigem participação cada vez mais ativa das mulheres.
Cooperativismo como pilar estratégico
Fabiana destacou que o cooperativismo tem se consolidado como uma das principais ferramentas para fortalecer o agronegócio brasileiro. “Em uma cadeia tão dependente de capital e sujeita a volatilidades, as cooperativas trazem poder de barganha e uma estrutura mais robusta para os produtores”, afirmou. Como exemplo, citou a parceria de cerca de 30 anos entre o Rabobank e a Cooxupé, cooperativa que reúne mais de 22 mil produtores e que, sozinha, tem escala equivalente à de um dos maiores produtores de café do mundo.
Tania Zanella, presidente executiva do Sistema OCB (Organização das Cooperativas do Brasil), participou do painel e apresentou dados que mostram a força do cooperativismo. Em 2026, o setor reúne 4.400 cooperativas e 29,02 milhões de cooperados, crescimento de 86% em relação a 2019. O movimento gera mais de 613 mil empregos diretos, movimenta R$ 848,37 bilhões em ingressos e acumula R$ 1,6 trilhão em ativos.
Segundo Tania, 72% dos agricultores familiares estão ligados ao sistema cooperativo, utilizando a organização coletiva para agregar valor à produção e ampliar oportunidades de mercado. Ela também apontou que as mulheres representam 38% dos cooperados, mas o principal desafio é aumentar sua presença nos espaços de decisão. “O importante não é apenas ampliar a participação feminina na base, mas garantir que essas mulheres estejam nos cargos de liderança”, afirmou.
Para a dirigente, o momento atual é um dos mais desafiadores para os produtores, com instabilidade climática, dificuldades de acesso ao crédito e redução da rentabilidade. As cooperativas, por estarem próximas do produtor, têm se mostrado essenciais para oferecer suporte, especialmente em municípios com pouca oferta de serviços financeiros. “Por que as cooperativas crescem nos momentos de crise? Pela confiança”, concluiu.