Conflito na Ucrânia coloca em risco oferta global de trigo e eleva pressão sobre importações brasileiras

A continuidade da guerra entre Rússia e Ucrânia pode retirar cerca de 10 milhões de toneladas de trigo do fluxo global no quarto trimestre, ampliando a disputa pelo cereal argentino e aumentando as incertezas para o abastecimento brasileiro. O alerta é de Tito Marquetti Martinho, diretor de originação e trading de trigo da Bunge Alimentos, durante participação no 33º Congresso Internacional da Indústria do Trigo, no Rio de Janeiro.

Segundo Martinho, o mercado internacional de trigo está relativamente equilibrado, mas esse cenário pode mudar caso o conflito se prolongue. As exportações de Rússia e Ucrânia foram reduzidas em cerca de 50%, apesar da criação de rotas alternativas. Grandes volumes permanecem represados na região, mesmo diante de estoques elevados.

“No papel não falta trigo, mas ele está preso em algumas regiões, e onde tem trigo ele é necessário para atender a uma região consumidora muito importante, que somos nós aqui”, relata o executivo.

A continuidade da guerra também aumenta a pressão sobre a Argentina e a Europa, que concentram algumas das origens mais competitivas em preço. O trigo argentino é atualmente o mais competitivo, seguido pelo francês. A disputa é especialmente relevante para o Brasil, que enfrenta uma safra menor e com problemas de qualidade e deve depender mais do mercado externo.

Cerca de 80% das importações brasileiras de trigo previstas devem ter origem argentina. O país vizinho deve colher 23,5 milhões de toneladas na atual temporada. Embora o volume fique abaixo do recorde do ano passado, a produção ainda é considerada robusta. A qualidade do cereal, porém, dependerá das condições climáticas de novembro e dezembro.

No entanto, a Argentina também será importante para suprir a demanda internacional caso o conflito no Mar Negro continue restringindo o comércio. Com isso, o trigo argentino poderá ser disputado por diferentes mercados consumidores, inclusive o brasileiro.

Infraestrutura portuária preocupa

Além da disponibilidade do cereal no mercado internacional, a capacidade logística brasileira é um dos principais pontos de atenção para a próxima temporada. Segundo Martinho, o desafio não está apenas em encontrar trigo para comprar, mas em conseguir receber os volumes necessários.

“Não é uma questão de disponibilidade de trigo, é uma questão de capacidade de infraestrutura”, afirma.

O executivo destacou que a região Sul, principal produtora de trigo no Brasil, não está habituada a movimentar volumes tão elevados de importação. Ao mesmo tempo, os portos brasileiros ainda precisam escoar soja e milho, enquanto se preparam para a movimentação da nova safra de soja. A concentração de embarques e desembarques de diferentes commodities pode colocar à prova a capacidade portuária brasileira.

Na avaliação de Martinho, esse cenário torna incerto o volume de trigo que o país conseguirá importar e a velocidade com que o produto chegará aos consumidores.

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