O produtor que conhece cada talhão da propriedade e acerta a janela de plantio ainda assim pode não garantir que a fazenda chegue inteira à próxima geração. A falta de gestão profissional é apontada como a raiz de muitos problemas financeiros no setor, em um cenário de margens apertadas e endividamento crescente.
Para discutir esse desafio, o evento AR Para Quem Produz será realizado nos dias 1º e 2 de outubro de 2026, na Villa Cavalcare, em Goiânia (GO). Com capacidade para até 100 participantes, o encontro quer reunir o produtor que construiu o negócio e os filhos que se preparam para assumi-lo.
O endividamento como sintoma, não causa
O idealizador do evento, o advogado Arthur Rodrigues, que atua na defesa de produtores rurais, observa que o endividamento que aperta parte do setor é consequência de uma gestão deficiente. “O endividamento não é o problema do produtor rural. A raiz é a falta de gestão”, afirma.
Há cerca de 20 anos, margens mais folgadas permitiam que o fazendeiro se dedicasse apenas à operação dentro da porteira. Com mais concorrência, custos elevados e um mercado mais sofisticado, a conta mudou. Hoje, o resultado depende de saber ler uma DRE (Demonstração do Resultado do Exercício), alinhar o crédito à capacidade de produção e identificar onde o dinheiro está escapando.
Dados recentes reforçam o cenário. Levantamento da Serasa Experian indica que a inadimplência da população rural chegou a 8,8% no primeiro trimestre de 2026, alta de 1,2 ponto percentual sobre o mesmo período de 2025. No Centro-Oeste, a taxa é ainda maior: 10,1%. O grupo mais endividado tem entre 30 e 39 anos, com 13,6%.
A sucessão e o peso escondido na família
Arthur Rodrigues também destaca um componente que costuma ficar fora da conversa: o produtor raramente divide a preocupação com a esposa, o pai ou os irmãos. O medo de não dar conta, de desonrar a trajetória da família e de não conseguir entregar a fazenda aos filhos é real. A sucessão ganha urgência diante do envelhecimento dos responsáveis. Dados do Censo Agropecuário 2017 mostram que a participação de produtores com 65 anos ou mais subiu de 17,5% para 23,2% entre 2006 e 2017, enquanto a de responsáveis entre 25 e 35 anos caiu de 13,6% para 9,3%.
Para o idealizador, a solução não é reduzir o padrão de vida da família, mas transformar a fazenda em uma empresa bem gerida. “Pedir ajuda é um gesto de coragem”, afirma.
O método apresentado no encontro
A proposta se organiza em quatro etapas: coletar os dados, olhar para eles, analisá-los e decidir a partir deles. Isso significa responder perguntas como:
- Quanto crédito é necessário e se cabe na capacidade de produção?
- Onde a margem líquida pode melhorar, comprando melhor ou em outro momento?
- Há crédito perdido ou tributos pagos a mais?
- Como agregar valor à marca do que sai da porteira?
- Quais são os riscos ambientais, trabalhistas e sucessórios da atividade?
Programação de dois dias
No primeiro dia, “O que construímos até aqui”, a programação inclui palestras de Daniel Rabelo sobre gestão, família, legado e sucessão, e Rubens Inácio sobre marca e posicionamento. Um painel cruza produção, gestão empresarial, finanças, tributos e um caso real de sucessão. A noite fica reservada à convivência, com fogueira e uma experiência de fé.
O segundo dia, “O que precisa permanecer”, começa às 8h, com Christiano Soares apresentando a gestão da fazenda como empresa, e Ricardo Arantes tratando de cultura e pessoas. Um segundo painel debate o que precisa mudar hoje para que a propriedade chegue às próximas gerações.
As “Pausas de Decisão” interrompem o conteúdo para que os participantes possam refletir e discutir suas próprias situações.
Inscrições e mais informações
O evento tem vagas limitadas a 100 participantes. Para mais detalhes sobre programação e inscrições, os interessados devem acompanhar os canais oficiais da iniciativa.