Mais resistente à seca e ao calor intenso, capaz de se desenvolver em solos menos férteis, o sorgo vem se consolidando como uma alternativa estratégica para os agricultores brasileiros em tempos de mudanças climáticas. Antes desprezado, o cereal agora se tornou um ‘negócio da China’: as exportações para o mercado chinês, autorizadas em 2024, começaram efetivamente em agosto de 2026 e criaram uma nova demanda expressiva.
Das 790 mil toneladas de sorgo enviadas ao mercado externo entre janeiro e setembro de 2026, a China foi o destino de 755,6 mil toneladas. A produção nacional deve alcançar 8,03 milhões de toneladas na safra 2026/27, um aumento de 9% em relação ao ciclo anterior, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A área plantada deve crescer 2%, para 2,21 milhões de hectares.
Produtor colhe resultados
Em Uberaba (MG), o produtor Pedro Ottoni cultiva cerca de 1,9 mil hectares de sorgo na segunda safra. Ele espera fechar a colheita com produtividade média de 6 toneladas por hectare, alta de 42,8% sobre a temporada passada, quando a seca severa limitou o rendimento a 4,2 t/ha. “É uma cultura mais rústica, tolerante a estresse hídrico e térmico. Aqui no Triângulo Mineiro estamos sofrendo com ondas de calor – o sorgo, por ser de origem tropical, se adapta bem e entrega produtividade”, afirma.
Ottoni, que também é diretor da Aliança Internacional do Milho (Maizall), destaca que o sorgo exige manejo adequado, com adubação e controle de plantas daninhas e insetos. “A cultura de ‘plantar sorgo por plantar e ver o que colhe’ não existe mais. Em áreas irrigadas, alcançamos produtividades acima de 9 t/ha”, diz.
Custo mais baixo e preço atrativo
Segundo o agricultor Bernhard Kiep, de Itaberá (SP), o custo de produção do sorgo é de 40% a 50% menor que o do milho. Nas áreas irrigadas, a produtividade pode chegar a 10 t/ha. O preço de venda fica entre R$ 50 e R$ 60 por saca de 60 kg, enquanto o milho era cotado a R$ 65,59 na última terça-feira (13/10). “A demanda está muito boa. Os EUA são nossos concorrentes e estão menosprezando o sorgo, porque preferem plantar milho”, acrescenta.
Etanol e contratos futuros
No mercado de biocombustíveis, a Inpasa utiliza sorgo como matéria-prima e oferece contratos futuros para dar previsibilidade ao produtor. “Fazemos um contrato antecipado, com preço estabelecido, para travar os custos”, explica Irineo Piaia Junior, gerente regional da Inpasa.
Com a entrada da China como compradora, o cenário se torna ainda mais promissor. “A vinda da China abriu uma perspectiva muito boa, inclusive com preços. Em algumas regiões, o sorgo já chega próximo ao preço do milho, como em São Paulo”, comenta Paulo Bertolini, presidente da Abramilho.
O sorgo é o quinto cereal mais produzido no mundo, e o Brasil ocupa a segunda posição, atrás apenas dos Estados Unidos. A tendência é que o grão ganhe ainda mais espaço na próxima safra, com investimentos em tecnologia e manejo.