Estudo aponta que rastreabilidade bovina exige incentivos financeiros e atuação dos frigoríficos para ganhar escala

Um estudo realizado pelo Imaflora, com base em projetos da ONG Amigos da Terra e da Fundação Solidaridad no Pará, destaca que a ampliação da rastreabilidade individual de bovinos no Brasil depende de incentivos financeiros e da participação ativa da indústria frigorífica. O documento reúne recomendações para políticas públicas que promovam a rastreabilidade na cadeia da carne bovina, aliando a regularização ambiental dos produtores à reinserção no mercado pecuário.

Foram analisados dois projetos-piloto no estado: um focado na adesão de pecuaristas à rastreabilidade individual, conduzido pela Amigos da Terra, e outro voltado à requalificação comercial de pequenos criadores em Novo Repartimento, pela Solidaridad. Segundo o coordenador de Políticas Públicas do Imaflora, Bruno Vello, os frigoríficos são um eixo crucial por atuarem como ponto de convergência na cadeia, podendo disseminar informações e reduzir incertezas dos produtores.

O projeto da Amigos da Terra, com duração de 20 meses, alcançou 59 produtores (a maioria de pequeno e médio porte) e identificou 26 mil animais em 14 municípios do sudoeste paraense. A iniciativa incluiu doação de brincos de identificação e assistência técnica — fatores considerados fundamentais para a adesão. A coordenadora do Programa de Cadeias Agropecuárias da ONG, Natália Grossi, estimou um custo de R$ 1,7 milhão em 12 meses, principalmente com kits de identificação. A ação foi realizada junto a frigoríficos signatários de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público, que se comprometem a não adquirir animais de áreas com passivo ambiental ou trabalhista.

Grossi afirmou que, considerando frigoríficos de médio e grande porte signatários do TAC, seria possível elevar o percentual de animais identificados no Pará de 0,2% (em 2025) para 30% em 2030, alcançando cerca de 7,5 milhões de bovinos. Já o projeto da Fundação Solidaridad em Novo Repartimento, embora com baixa adesão (apenas 13 produtores de 143), permitiu identificar barreiras para a regularização ambiental. O gerente de Programas, Paulo Lima, destacou que 38% das famílias adeririam se pudessem restaurar passivos em outra área da propriedade — um achado importante para subsidiar políticas públicas. A oferta de incentivos financeiros e suporte jurídico elevou a adesão de 4,2% para 9,1% em um ano.

Vello ressalta que, embora focado no Pará, o estudo gera recomendações aplicáveis a todo o Brasil e à Amazônia, atendendo a demandas sociais e de mercado. “A obrigatoriedade da rastreabilidade, sozinha, não é suficiente. No Pará são 120 mil produtores e 26 milhões de cabeças de gado, com enorme diversidade socioeconômica”, conclui.

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